ANO 24 • EDIÇÃO 253 • JANEIRO/FEVEREIRO DE 2026 ONDE O SETOR MOVELEIRO GANHA VOZ HÁ 24 ANOS Feiras sinalizam ano movimentado Tarifas encolhem exportações de móveis e geram déficit Brasil e seus novos hábitos de consumo de móveis Juros elevados e eleições redefinem o jogo este ano @moveisdevalor
6 moveisdevalor.com.br Por Inalva Corsi, editora N ossa primeira edição de 2026 chega repleta de conteúdo estratégico para indústria e varejo. São 132 páginas com informações e análises, prenúncio de um ano agitado e que promete muitas mudanças na geopolítica e na economia. Por exemplo, eleições e juros elevados redefinem o jogo empresarial, em um cenário complexo que exigirá leitura fina do mercado, disciplina estratégica e atenção redobrada às margens e ao ritmo dos negócios. Isso e muitos outros dados você confere na editoria de Mercado, na análise do jornalista Guilherme Arruda. Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor, chama atenção do varejo para o novo mapa de consumo de móveis no Brasil. Segundo sua análise, o varejo passa por mudança estrutural, com menos excesso, mais sentido e decisões mais conscientes. Na reportagem, você confere ainda que durabilidade, identidade e experiência deixam de ser diferenciais e passam a orientar produto, varejo e estratégia industrial... Mas, tem muito mais. E o varejo também precisa ficar de olho no e-commerce, que encerrou 2025 sob pressão e com muita oscilação nas vendas ao longo do ano. Na análise de Ari Bruno Lorandi, o alerta está aceso e exige ajustes de rota e mais loja física e menos cliques. Confira mais na editoria Comércio. Nas exportações, o tarifaço de Trump reduziu os embarques brasileiros e gerou déficit na balança comercial. Somente para os Estados Unidos, o Brasil deixou de vender US$ 49,3 milhões ano passado, gerando um saldo negativo entre importação e exportação de mais de US$ 40 milhões. E, mais grave, as importações da China bateram novo recorde, com a participação do país chegando a quase 50% do total de importações brasileiras de móveis e colchões. O México segue no mesmo caminho, impondo tarifas de 35% aos móveis brasileiros, o que exige a busca de alternativas que vão além da diplomacia, passando por avanços em acordos comerciais como Mercosul – UE e ações mais assertivas na conquista de novos mercados. Veja mais a respeito na editoria de Mercado. Na editoria de Indústria analisamos a escassez de mão de obra, que vem mudando o ritmo das fábricas. Nos polos moveleiros, segundo pesquisa da Abimóvel, o déficit gira entre 15% e 30% e algumas empresas investem em tecnologia para contornar o problema. Mas a situação exige um novo olhar para as relações entre empregado e empregador, como mostra a reportagem. Esta edição também traz a cobertura das feiras internacionais imm cologne, realizada na Alemanha, e da Maison&Objet, que aconteceu em Paris. Além das feiras nacionais: Femur, Abimad e Movelpar Home Show. A partir da movimentação nos eventos, observa-se que os varejistas estão em busca de novidades para incrementar suas vendas. Aproveite o conteúdo e nos acompanhe nas redes sociais e no portal moveisdevalor.com.br. REDAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO Rua Dep. Estefano Mikilita, 125 - 3º andar CEP 81070-430 - Portão Curitiba – PR – Brasil CONTATO Fone (41) 99912-9877 www.moveisdevalor.com.br moveisdevalor@moveisdevalor.com.br DIRETORES Ari Bruno Lorandi aribruno@moveisdevalor.com.br Inalva Corsi inalvacorsi@moveisdevalor.com.br ADMINISTRAÇÃO/FINANÇAS Juliana Pinheiro financeiro@moveisdevalor.com.br REDAÇÃO Inalva Corsi – 3035 PR Jornalista Responsável inalvacorsi@moveisdevalor.com.br Natalia Concentino – 10431 PR natalia@moveisdevalor.com.br João Caetano Guimarães caetano@moveisdevalor.com.br Guilherme Arruda – 5955 RS Jornalista convidado guilherme@moveisdevalor.com.br DIREÇÃO DE ARTE E DIAGRAMAÇÃO Bruna Rosário arte@moveisdevalor.com.br ASSINATURAS E CIRCULAÇÃO assina@moveisdevalor.com.br COMERCIAL – SUL Inalva Corsi - (41) 99912-9877 | 99991-2974 inalvacorsi@moveisdevalor.com.br COMERCIAL – SUDESTE Cidinha Leal - (17) 98114-3666 cidinha@moveisdevalor.com.br CARTA DA EDITORA @moveisdevalor Acesse a versão digital desta edição
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8 moveisdevalor.com.br SUMÁRIO NOSSA CAPA Ilustra capa desta edição Ambiente Vivaldi, da Artely, de São José dos Pinhais (PR) (41) 3381-5000 www.artely.com.br 116 MV LUXURY Natuzzi: quando o sofá deixa de ser produto e vira linguagem 120 DESIGN Curvas retornam como expressão do design contemporâneo SEÇÕES 12 CÁ ENTRE NÓS Quem ensinou o consumidor a só olhar preço? 14 PONTO DE VENDA Bolso do consumidor sente que móveis subiram acima do IPCA 34 DE FRENTE COM OS NÚMEROS Tarifaço encolhe as exportações e gera déficit em 2025 54 DESTAQUE DE CAPA Há 30 anos, Artely transforma tradição e design em crescimento 18 MERCADO Juros elevados e eleições redefinem o jogo este ano 24 VAREJO Brasil e seus novos hábitos de consumo de móveis 30 VAREJO E-commerce de móveis acende alerta e exige ajuste 40 MERCADO Tarifas impostas pelo México impactam setor moveleiro 44 MERCADO Missão à Argentina abre nova frente para móveis catarinense 46 INDÚSTRIA Escassez de mão de obra muda ritmo das fábricas 112 INDÚSTRIA MóveisHub é o elo de inovação do polo de Arapongas 56 FEIRAS E EVENTOS Femur registra maior visitação e volume de negócios da história 70 FEIRAS E EVENTOS Movelpar se despede do Expoara com edição de muito sucesso 100 FEIRAS E EVENTOS Abimad reafirma protagonismo na indústria de alta decoração 104 FEIRAS E EVENTOS NRF confirma Inteligência Artificial como eixo central do varejo 108 TRILHA ESG O caminho da governança para uma indústria mais lucrativa 110 TECNOLOGIA MDF de bagaço de cana pode redesenhar a indústria moveleira 130 NOTAS INDÚSTRIA Americanflex se reorganiza para crescer em 2026
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12 moveisdevalor.com.br EUA: OPORTUNIDADE OU ILUSÃO ESTRATÉGICA? A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos muda o jogo. Tarifas deixam de ser apenas instrumentos comerciais e passam a integrar uma lógica mais ampla de proteção econômica, cadeias produtivas e produção doméstica. Isso significa menos previsibilidade e mais política nas decisões de importação. Apostar que o mercado americano simplesmente “abrirá” para o móvel brasileiro pode ser uma leitura otimista demais. Talvez a estratégia mais inteligente não seja esperar uma virada nos EUA, mas diversificar mercados e reduzir a dependência de um cenário cada vez mais volátil. O mundo mudou. E quem entender isso antes, sai na frente. Leia a análise completa no QR Code. QUEM ENSINOU O CONSUMIDOR A SÓ OLHAR PREÇO? O setor reclama que o cliente só pergunta “qual é o mais barato?”. Mas quem treinou esse comportamento? Durante anos, o varejo priorizou fechar rápido em vez de vender certo. Menos diagnóstico, menos explicação, mais pressão por preço. O resultado é um consumidor condicionado a decidir pelo critério mais simples. Margem não melhora com promoção constante. Melhora com venda de valor, preparo de equipe e coragem para mudar o modelo mental. Antes de culpar o consumidor, talvez seja hora de rever como estamos vendendo. Leia o texto completo no QR Code. FATOR LOCAL É NOSSA VANTAGEM COMPETITIVA INVISÍVEL Quando falamos em inovação, pensamos logo em tecnologia. Mas o Brasil tem um ativo poderoso, e pouco explorado, para competir lá fora: o fator local. Cultura, hábitos, clima, formas de morar e de usar o móvel são fontes reais de diferenciação. Num mercado global saturado de produtos padronizados, identidade vira valor. Mas atenção: não é caricatura, é tradução inteligente da cultura em design, funcionalidade e narrativa. Quem transforma identidade em estratégia sai da guerra de preço e entra na disputa por margem. Leia a análise completa no QR Code. O SOBE E DESCE QUE VIROU PADRÃO Os últimos dez anos mostram um setor moveleiro preso a um ciclo de picos curtos e quedas recorrentes. Cresce um pouco, perde fôlego logo depois. Não é acaso, é padrão. O problema não está apenas na fábrica. A indústria é o meio da cadeia, não o fim. Produção instável reflete consumo instável, crédito restrito e um modelo que ainda responde com preço quando o consumidor pede valor. Não é mais sobre produzir mais. É sobre vender melhor, integrar a cadeia e reconstruir desejo. Leia a análise completa no QR Code. O CONSUMIDOR BRASILEIRO NÃO TRAVOU — ELE FICOU MAIS ESTRATÉGICO A cautela no Brasil não é conjuntural, é estrutural. Endividamento alto, renda pressionada e crédito caro fazem parte do cenário há anos — e isso moldou um consumidor naturalmente defensivo. Em 2026, o que muda é a intensidade. A compra ficou mais racional. Menos impulso, mais comparação. Menos desejo puro, mais percepção de valor. O consumo não desaparece, ele se reorganiza. Ganha espaço quem comunica melhor, entrega confiança e reduz o risco percebido. O jogo deixa de ser volume e passa a ser estratégia. Leia a análise completa no QR Code. Por Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor
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14 moveisdevalor.com.br CONSÓRCIO DE MÓVEIS PLANEJADOS SE CONSOLIDA COMO ALTERNATIVA O mercado de consórcios encerrou 2025 em trajetória de crescimento, mas é em 2026 que o produto passa a assumir um papel mais estratégico. Tradicionalmente associado à compra de veículos e imóveis, o consórcio amplia seu campo de atuação e avança sobre o interior das residências, consolidando-se como uma solução para o planejamento de móveis planejados. O movimento dialoga diretamente com as transformações do mercado imobiliário, marcado por imóveis menores, projetos mais personalizados e consumidores cada vez mais atentos ao custo total de morar. Nesse contexto, o consórcio de móveis planejados surge como uma ferramenta de organização financeira de longo prazo, substituindo o crédito emergencial por planejamento. INADIMPLÊNCIA REINCIDENTE ATINGE 84,7% E PREOCUPA O CRÉDITO Dados divulgados pela CNDL em parceria com o SPC Brasil, mostram que 84,7% dos consumidores negativados em dezembro de 2025 já haviam passado pelo cadastro de inadimplentes nos 12 meses anteriores. Do total de reincidentes, 66,9% ainda não haviam quitado dívidas antigas quando voltaram a ser negativados, enquanto 17,8% chegaram a sair do cadastro, mas retornaram pouco tempo depois. Apenas 15,2% dos negativados não tiveram restrições no CPF ao longo do último ano. Em média, o intervalo entre o vencimento de uma dívida negativada e o surgimento de uma nova pendência foi de 70,7 dias, o equivalente a pouco mais de dois meses. O BOLSO DO CONSUMIDOR SENTE QUE MÓVEIS SUBIRAM BEM ACIMA DO IPCA Entre 2021 e 2025, o IPCA geral acumulou alta de 32,9%. No mesmo período, o IPCA de mobiliário avançou 51,7%. Uma diferença de quase 19 pontos percentuais acima da inflação média do país - algo próximo de 4% ao ano acima do índice geral. Ou seja, móveis ficaram significativamente mais caros do que a média dos produtos e serviços consumidos pelos brasileiros. O pico ocorreu em 2021 e 2022, no auge da pressão de custos. Depois houve desaceleração, mas o acumulado já estava consolidado. Quando um item sobe muito acima da inflação média, passa a disputar espaço no orçamento familiar. A questão é saber se o consumidor continuará absorO VAREJO DE MÓVEIS EM 2025 MOSTRA UM ANO NEGATIVO EM VOLUME Depois de janeiro ainda positivo, com alta de 0,8%, o setor entrou em trajetória de queda contínua. A partir de março, as perdas se aprofundam mês a mês, chegando ao pior momento em agosto, com retração de 4,7%. De setembro a dezembro há uma leve estabilização, mas ainda em terreno negativo, fechando o ano com queda próxima de 4% no volume. O consumidor está mais seletivo, mais cauteloso e comprando menos móveis. E isso muda completamente a lógica de 2026: não será um ano de repasse, será um ano de disputa por volume. PONTO DE VENDA vendo esses preços ou entraremos em um ciclo de maior resistência e mais promoções e liquidações?
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16 moveisdevalor.com.br DESTAQUE REPRESENTANTE Tigre conecta indústria e varejo com estratégia Família Rodrigues de Souza, juntos na representação comercial há mais de 30 anos
17 moveisdevalor.com.br Há mais de 30 anos atuando no Norte e Nordeste, a Tigre Representações construiu uma reputação sólida como ponte estratégica entre indústria e varejo. Com o slogan “Fé, Estratégia e Performance que Conectam Indústria e Varejo no Brasil”, a empresa se posiciona como muito mais do que um escritório de vendas: é uma representação consultiva orientada a resultado. Fundada oficialmente em 1994 por Valcemir Rodrigues de Souza, a Tigre nasceu com um propósito claro — gerar oportunidades, fortalecer o varejo e criar conexões comerciais sustentáveis. A trajetória empreendedora de Valcemir, iniciada ainda na infância, moldou os pilares que hoje sustentam a empresa: disciplina, perseverança, visão de mercado e foco em performance. REPRESENTAÇÃO ESTRATÉGICA, NÃO APENAS COMERCIAL O grande diferencial da Tigre está no modelo de atuação. A empresa representa marcas dos segmentos de móveis, estofados, colchões e eletro com uma abordagem estratégica, baseada em análise de mix e giro de estoque, direcionamento comercial personalizado, apoio promocional, integração entre loja física e digital e presença ativa nas principais feiras do país. “Acompanhamos de perto o lojista, analisamos o mercado e ajudamos a construir resultados sustentáveis”, afirma Valcemir. A Tigre mantém estande próprio nos maiores eventos do Nordeste, transformando esses espaços em verdadeiros pontos de encontro para networking qualificado e geração de negócios. Além disso, promove imersões empresariais em polos como Paraná e Minas Gerais, conectando lojistas a boas práticas, fornecedores estratégicos e novas oportunidades. PERFORMANCE RECONHECIDA PELAS INDÚSTRIAS A consistência do trabalho se reflete em premiações anuais concedidas pelas indústrias representadas, reconhecimento direto da performance e dos resultados entregues. Mais do que representar produtos, a Tigre representa soluções. O foco é oferecer competitividade, qualidade e giro saudável para o varejo. GESTÃO FAMILIAR COM VISÃO DE FUTURO A empresa mantém estrutura familiar profissionalizada. Juranilde Castro de Souza lidera o setor financeiro. Os filhos Lucas e Israel atuam como representantes comerciais, enquanto Israelly responde pela gestão estratégica, posicionamento institucional e comunicação. A nova geração trouxe inovação digital, fortalecimento de marca e plano de expansão por meio de franquias, sem perder os valores que sustentaram a construção da empresa. O REPRESENTANTE MODERNO Para Israelly, o modelo tradicional de representação já não atende às exigências atuais. “O representante precisa ser consultor, estrategista e parceiro de negócios. O futuro é profissional, tecnológico e orientado por dados.” A Tigre investe fortemente no digital, utilizando suas plataformas para cobertura de feiras, apresentação de lançamentos e produção de conteúdo por meio do TIGRE CAST, projeto que entrevista lojistas e fabricantes de destaque no mercado nacional. A empresa também estimula o varejo a investir em presença online como ferramenta de autoridade e geração de giro, integrando relacionamento presencial e atuação digital. FOCO EM CRESCIMENTO SUSTENTÁVEL Diante de um cenário desafiador para o setor moveleiro, a Tigre mantém postura de cautela estratégica e visão otimista. A orientação ao lojista é clara: planejamento, compras conscientes, análise de estoque e fortalecimento da parceria com fornecedores. Com três décadas de mercado, a Tigre Representações consolida seu posicionamento como representação estratégica de alta performance, conectando indústria e varejo com método, proximidade e resultado. @tigrerepresentacao (81) 99322-1770 tigrerp@hotmail.com
18 moveisdevalor.com.br MERCADO Juros elevados e eleições redefinem o jogo este ano UM AMBIENTE DE DECISÕES COMPLEXAS EXIGIRÁ UMA LEITURA FINA DO MERCADO EM 2026, ALÉM DE DISCIPLINA ESTRATÉGICA E ATENÇÃO REDOBRADA À PRESERVAÇÃO DE MARGENS E AO RITMO DOS NEGÓCIOS ENTRE SINAIS POSITIVOS E ALERTAS SILENCIOSOS, INDÚSTRIA E COMÉRCIO ENTRAM O ANO EM UM PERÍODO QUE TESTA PLANEJAMENTO, EFICIÊNCIA OPERACIONAL E CAPACIDADE DE ADAPTAÇÃO A UM CENÁRIO MENOS PREVISÍVEL Por Guilherme Arruda, jornalista convidado O ano se inicia em meio a um cenário paradoxal. De um lado, indicadores econômicos positivos, como inflação sob controle e o mercado de trabalho aquecido. De outro, uma crise fiscal que ameaça corroer os avanços e a pressionar a política monetária, mantendo os juros em patamar elevado. No centro dessa equação está o presidente Lula, reconhecido por sua disposição em ampliar gastos públicos. E mesmo recebendo críticas, há indícios de que sejam injetados R$ 88 bilhões na economia (CNN Brasil). A prioridade é clara: garantir a reeleição e que se dane o impacto nas contas públicas. Este é o ambiente que os empresários sabem que vão encontrar em 2026. A priori, o setor de serviços deve sustentar quase 60% da expansão econômica. Os juros seguem como um freio estrutural para compras parceladas. A renda em alta e os estímulos ao consumo até atenuam a desaceleração, embora não revertam a tendência. O resultado esperado é um PIB que perde ritmo: de 2,3% em 2025 (o índice oficial será divulgado pelo IBGE em março) para 1,8% em 2026, refletindo o desafio de conciliar dinamismo com disciplina fiscal. Nos últimos meses, o mercado de crédito entrou em fase de retração, sobretudo para pessoas físicas. Entraves no consignado reduziram concessões, enquanto famílias e empresas
19 moveisdevalor.com.br Consumidor adota postura mais cautelosa na compra de bens de maior valor Thiago Carvalho, assessor econômico da Fecomercio SP passaram a liquidar dívidas em ritmo maior. O saldo de crédito cresce menos, enquanto os indicadores de endividamento e da inadimplência avançam de forma significativa. No final de 2025, havia 81,2 milhões de inadimplentes, 10% a mais em relação a dezembro de 2024, de acordo com a Serasa, que considera uma pessoa devedora a partir do momento em que o credor faz a notificação. Um tempero adicional é o calendário que tem o maior número de feriados em dias úteis da última década, o que acaba expondo um dilema recorrente da nossa economia: como conciliar produtividade e consumo diante de tantas pausas. Considere ainda os dias extras em razão de feriados estaduais e municipais, além dos pontos facultativos, como vésperas de Natal e Ano Novo, e o dia de Corpus Christi. Se por um lado o turismo e o lazer ganham fôlego, setores como indústria e varejo de bens duráveis tendem a enfrentar perdas. CONSUMIDOR CAUTELOSO Pesquisa elaborada pela Fecomércio SP com base nos dados da secretaria estadual da Fazenda, mostra que as vendas de móveis e decoração no maior mercado do país cresceram 3,2% no acumulado nos 12 meses encerrados em setembro de 2025 (último dado disponível), mas na comparação mês ante igual mês do ano anterior, a tendência é de que queda. “O faturamento recuou 1,7% em julho, 7,2% em agosto e 10,8% em setembro — ou seja, as perspectivas para 2025 já não eram boas. Para 2026, o cenário de juros altos e inadimplência em patamar elevado deve continuar influenciando negativamente”, analisa Thiago Carvalho, assessor econômico da Fecomércio SP. Ademais, continua Thiago, "como móveis e colchões são bens duráveis em que a compra normalmente é feita de maneira parcelada, comprometendo a renda por vários meses, é importante considerar as eleições presidenciais deste ano. O consumidor costuma adotar uma postura mais cautelosa quanto à compra de bens de maior valor, preferindo aguardar a definição da política econômica que será adotada para tomar a decisão de comprar”, pondera o economista. Os dados do ano passado ainda estão sendo processados, mas a expectativa é que as vendas do varejo paulista tenham crescido 5% em 2025. “Esse desempenho está baseado no primeiro semestre. O segundo foi de desaceleração e até mesmo de queda nas vendas para alguns segmentos, principalmente para os que comercializam bens duráveis, como veículos, materiais de construção, móveis e decoração. Além da forte base de comparação, o crédito mais caro acaba impactan-
20 moveisdevalor.com.br ção da reforma tributária. “Vai exigir bastante atenção no sentido de adequação para evitar transtornos com o fisco”, chama a atenção. GESTÃO DOS ESTOQUES Vitor Guidini, presidente do Sindimol, do Espírito Santo, é taxativo: “Sim, é possível esperar uma redução das margens de rentabilidade das indústrias de móveis, especialmente no curto e médio prazo. O aumento dos custos operacionais, financeiros e produtivos ocorre em ritmo mais rápido do que a capacidade de repasse de preços ao mercado, o que naturalmente comprime as margens do setor”, explica. Para ele, juros elevados, custos fixos mais altos e um consumo mais seletivo fazem com que as empresas precisem ser ainda mais eficientes para preservar resultados. “Nesse cenário, as organizações que investem em gestão, controle de custos, produtividade e posicionamento claro de mercado terão melhores condições de sustentar margens e atravessar esse período com maior solidez”, indica o empresário. Thiago Carvalho, da Fecomércio SP, destaca que em períodos de juros elevados, é fundamental fazer uma boa gestão dos estoques. “Estoque parado significa dinheiro parado, prejudicando o fluxo de caixa da empresa. Além disso, é importante adotar uma certa dose de cautela na realização de investimentos — seja em ampliação física, seja em reformas, seja em contratação de funcionários, já que, se a desaceleração for mais intensa que o esperado, será necessário reduzir o quadro na sequência, gerando custos. Ou seja, 2026 será complexo, e o empresário precisa estar preparado e atento”, alerta. Nos últimos anos, o mercado financeiro colecionou equívocos ao projetar o PIB brasileiro. Em 2021, previa 3,4% e o resultado foi 4,8%. Em 2022, estimava 0,36%, mas a economia avançou 3%. Em 2023, esperava 0,8% e o crescimento chegou a 3,2%. Em 2024, a projeção era de 1,5%, mas o país surpreendeu com 3,4%. Ano passado imaginou 2,25%, e o resultado deve ficar próximo de 2,3%. Fica a pergunta: afinal, é possível levar a sério os oráculos do mercado em 2026? Vitor Agostini, presidente da Movergs Crédito: Carlos Ferrari Vitor Guidini, presidente do Sindimol-ES MERCADO do negativamente as vendas”, informa. MARGENS APERTADAS Juros, inflação, renda das famílias, inadimplência, assim como custos fixos e capital de giro das empresas são variáveis que podem influenciar o desempenho da indústria moveleira. Para o novo presidente da Movergs, Vitor Agostini, um impacto maior ou menor depende do perfil de cada empresa e varia caso a caso, acrescentando que o polo gaúcho é formado por empresas dos mais variados portes, número de colaboradores, estrutura de custos e capacidade de atender a diferentes mercados. “A maioria dos empresários, procura atuar diminuindo margens nos primeiros momentos para tentar manter os preços ao consumidor final e, dependendo do tipo de produto, nem todos conseguem repassar os reajustes que ocorrem em matéria-prima e impostos, por exemplo. Depende do perfil de cada empresa”, diz Agostini, reforçando que ano eleitoral costuma inibir a economia e que 2026 inicia o período de transi-
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24 moveisdevalor.com.br específica. Eles refletem uma combinação de fadiga com ofertas padronizadas, maior racionalidade nas compras e uma busca crescente por significado, identidade e permanência dentro do lar. DIFERENCIAÇÃO DEIXA DE SER OPCIONAL O consumidor brasileiro demonstra menor tolerância a ambientes genéricos e soluções repetidas. A ideia de “móvel neutro para agradar a todos” perde força à medida que a Brasil e seus novos hábitos de consumo de móveis O consumo de móveis no Brasil atravessa uma transformação silenciosa, porém profunda. Mais do que oscilações conjunturais de renda, crédito ou inflação, o setor começa a sentir os efeitos de mudanças estruturais no comportamento do consumidor, que impactam diretamente decisões de projeto, mix de produtos, comunicação e formato de loja. Esses movimentos não surgem de uma única tendência estética ou de uma geração O CONSUMO DE MÓVEIS NO BRASIL PASSA POR UMA MUDANÇA ESTRUTURAL, COM MENOS EXCESSO, MAIS SENTIDO E DECISÕES MAIS CONSCIENTES DURABILIDADE, IDENTIDADE E EXPERIÊNCIA DEIXAM DE SER DIFERENCIAIS E PASSAM A ORIENTAR PRODUTO, VAREJO E ESTRATÉGIA INDUSTRIAL O SETOR ENTRA EM UM NOVO CICLO, EM QUE INDÚSTRIA, INSUMOS E VAREJO PRECISAM OPERAR DE FORMA MAIS INTEGRADA E INTENCIONAL Movimentos estruturais estão redesenhando o consumo de móveis no Brasil VAREJO Por Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor
25 moveisdevalor.com.br casa passa a ser vista como um espaço de expressão pessoal e emocional. Esse movimento pressiona fabricantes e varejistas a abandonarem propostas excessivamente indiferenciadas e a construírem linhas com ponto de vista claro, mesmo dentro de segmentos de maior volume. A personalização deixa de ser um diferencial restrito ao planejado e passa a ser uma expectativa também no móvel seriado — ainda que em formatos viáveis de escala. FLEXIBILIDADE PRODUTIVA GANHA VALOR Outro sinal estrutural é a rejeição ao excesso. Consumidores querem escolher, mas não querem se perder. Ambientes de loja e catálogos superlotados, com muitas opções pouco distintas entre si, começam a gerar fricção no processo de compra. Nesse contexto, ganha relevância a curadoria: menos produtos, melhor explicados, organizados por propostas de uso, estilo de vida e sensações. O valor deixa de estar apenas na variedade e passa a residir na clareza da oferta. DURABILIDADE COMO ARGUMENTO COMERCIAL Há também um deslocamento perceptível do consumo impulsivo para decisões mais ponderadas. O móvel passa a ser encarado como um investimento de médio e longo prazo, e não apenas como reposição estética. Isso reforça a importância de atributos como durabilidade, conforto real, materiais honestos e design atemporal. O discurso de novidade constante perde apelo frente à promessa de permanência, funcionalidade e coerência com a rotina do consumidor. SENSORIALIDADE APLICADA AO MATERIAL Mesmo em um cenário de maior Materiais e componentes passam a carregar identidade, não apenas função Capacidade de variar sem perder escala se torna ativo estratégico Desempenho técnico e longevidade influenciam a decisão do fabricante Textura, toque e cor agregam valor antes mesmo do móvel pronto
26 moveisdevalor.com.br racionalidade, a emoção segue central. O consumidor busca móveis que transmitam acolhimento, prazer visual e bem-estar. Texturas, cores, volumes e iluminação tornam-se elementos decisivos na percepção de valor, independentemente da faixa de preço. O luxo, nesse contexto, deixa de ser sinônimo de ostentação e passa a ser associado à experiência sensorial, ao conforto e à sensação de pertencimento ao espaço. PORTFÓLIO MAIS ENXUTO, MAIS ESTRATÉGICO Esses movimentos também redefinem o papel do varejo físico. A loja deixa de ser apenas um ponto de exposição e passa a funcionar como mediadora de escolhas, ajudando o consumidor a compreender o que faz sentido para sua casa e seu momento de vida. Ambientes mais intencionais, narrativas claras e uma experiência de compra menos transacional tornam-se diferenciais competitivos relevantes. APOIO TÉCNICO E NARRATIVA FORTALECEM A PARCERIA Por fim, a leitura mais cautelosa da demanda impõe uma revisão estrutural das políticas de estoque. Comprar em excesso, apostar em volumes sem lastro claro de demanda ou replicar modelos antigos de sortimento aumenta o risco financeiro e operacional. O estoque deixa de ser apenas um tema logístico e passa a ser uma decisão estratégica, diretamente conectada à compreensão do novo consumidor. SUSTENTABILIDADE CONCRETA, NÃO RETÓRICA O mercado brasileiro de móveis não está diante de uma simples mudança de gosto, mas de uma transição estrutural. O consumidor quer menos ruído, mais sentido; menos padrão, mais identidade; menos impulso, mais propósito. Menos opções dispersas, mais clareza de aplicação e posicionamento Fornecedor que orienta o desenvolvimento deixa de ser commodity Rastreabilidade e eficiência material ganham peso nas escolhas VAREJO
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28 moveisdevalor.com.br 1. Menos linhas genéricas, mais propostas claras Reduzir produtos “neutros demais” e estruturar coleções com identidade definida. O consumidor valoriza clareza de posicionamento, mesmo em linhas de maior volume. 2. Personalização viável em escala Investir em sistemas modulares, variação de acabamentos, tecidos e composições. A sensação de escolha importa mais do que a customização total. 3. Curadoria substitui excesso Diminuir o número de SKUs pouco distintos e organizar a oferta por ambientes, usos e estilos de vida. Menos opção, melhor decisão. 4. Durabilidade como argumento de venda Comunicar vida útil, conforto real e materiais honestos. O móvel passa a ser percebido como investimento, não impulso. 5. Emoção e sensorialidade no ponto de venda Trabalhar texturas, cores, iluminação e narrativa. Experiência bem construída gera valor percebido em todas as faixas de preço. 6. Loja como orientadora de escolhas A loja deixa de ser vitrine e passa a ser mediadora. Ambientes intencionais ajudam o consumidor a decidir com mais segurança. 7. Estoque é estratégia, não operação Rever políticas de compra, giro e mix. Estoque excessivo aumenta risco financeiro e reduz flexibilidade frente a um consumidor mais cauteloso. O QUE MUDA NA PRÁTICA PARA A INDÚSTRIA E O VAREJO DE MÓVEIS 1. Diferenciação deixa de ser opcional Materiais, ferragens, tecidos e acabamentos genéricos perdem espaço. Fabricantes buscam fornecedores que entreguem atributos claros de identidade, desempenho e aplicação. 2. Flexibilidade produtiva ganha valor Portfólios capazes de operar variações de cor, textura, densidade e acabamento, sem ruptura de escala, tornam-se mais estratégicos do que grandes volumes padronizados. 3. Modularidade começa no insumo Sistemas construtivos, componentes compatíveis entre linhas e soluções adaptáveis facilitam a personalização viável dos móveis seriados e planejados. 4. Durabilidade como argumento comercial Resistência, estabilidade, desempenho técnico e longevidade deixam de ser apenas especificações e passam a ser fatores decisivos de escolha pelos fabricantes. 5. Sensorialidade aplicada ao material Textura, toque, temperatura visual, absorção de luz e percepção tátil tornam-se atributos relevantes. O material precisa comunicar valor antes mesmo do móvel pronto. 6. Portfólio mais enxuto, mais estratégico Fabricantes valorizam fornecedores que ajudam a simplificar decisões, com famílias de produtos bem estruturadas e aplicações claras. 7. Apoio técnico e narrativa fortalecem a parceria Fornecedores deixam de vender apenas insumo e passam a entregar conteúdo técnico, argumentos de venda e apoio ao desenvolvimento de produto. 8. Sustentabilidade concreta, não retórica Origem responsável, rastreabilidade, eficiência de uso e redução de desperdício precisam ser mensuráveis e aplicáveis à indústria. O QUE OS MOVIMENTOS DE CONSUMO EXIGEM DOS FORNECEDORES DE INSUMOS E COMPONENTES As empresas que compreenderem esses movimentos e ajustarem suas decisões de produto, comunicação e varejo tendem a construir relevância de longo prazo. As que insistirem em modelos baseados apenas em volume, preço e repetição correm o risco de perder conexão com um consumidor que mudou — e não pretende voltar atrás. VAREJO
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30 moveisdevalor.com.br Casa & Móveis no e-commerce acende alerta e exige ajuste de rota O setor de Casa & Móveis encerrou dezembro de 2025 sob pressão no ambiente digital. Em um mês marcado pela acomodação do consumo após a Black Friday e pelas mudanças no comportamento do consumidor, o segmento registrou queda de 17,9% no tráfego, figurando entre as maiores retrações do e-commerce brasileiro no período. O desempenho contrasta com categorias impulsionadas por sazonalidade, como Infantil e Presentes & Flores, e reforça a necessidade de revisão estratégica por parte de indústrias e varejistas do setor. Nos últimos 12 meses, a trajetória do Casa & Móveis foi marcada por oscilações constantes, sem uma recuperação consistente. Após iniciar 2025 com crescimento de 10% em janeiro, o setor perdeu fôlego ao longo do ano, fechando dezembro com índice de 78% na base comparativa, desempenho abaixo da média geral do comércio eletrônico nacional. Os dados fazem parte do relatório do e-commerce no Brasil, divulgado pela Conversion - agência de SEO, GEO & PR no Brasil. CONSUMO MAIS CAUTELOSO E TICKET ELEVADO PESAM NO DESEMPENHO A retração do setor ocorre em um contexto de consumo mais racional, especialmente para bens duráveis e semiduráveis. Diferentemente de categorias de compra recorrente ou de forte apelo promocional, Casa & Móveis depende de decisões mais planejadas, com maior impacto do crédito, do frete e do prazo de entrega — fatores que se tornaram mais sensíveis no fim do ano. Além disso, o pós-Black Friday historicamente impõe um período de ajuste para o segmento, já que parte relevante da demanda é antecipada para novembro. Em dezembro, o consumidor tende a priorizar presentes, viagens e gastos sazonais, deslocando o interesse por móveis e itens para o lar. PERFIL DE ACESSO REVELA DESAFIOS E OPORTUNIDADES Apesar da retração, o setor mantém características importantes no comportamento digital. Em dezembro, 66,4% dos acessos a e-commerces de Casa & Móveis ocorreram via dispositivos Por Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor VAREJO
31 moveisdevalor.com.br móveis, enquanto 21,5% vieram de desktop e 12,1% de aplicativos O dado reforça que, embora o mobile seja dominante, o desktop ainda tem papel relevante na jornada de compra — especialmente em produtos de maior valor agregado, nos quais o consumidor tende a comparar especificações, preços e condições com mais cuidado. A participação relativamente baixa dos aplicativos indica um espaço claro para evolução. Diferentemente de setores como Marketplace ou Comidas & Bebidas, em que os apps já concentram grande parte do tráfego, Casa & Móveis ainda depende fortemente do acesso via navegador, o que pode limitar recorrência e fidelização. CONCENTRAÇÃO NOS GRANDES PLAYERS PRESSIONA O SETOR Outro ponto de atenção é a alta concentração de tráfego nos grandes varejistas generalistas, que atuam fortemente em Casa & Móveis dentro de seus ecossistemas de marketplace. Esse cenário amplia a concorrência por visibilidade digital e pressiona margens, especialmente para fabricantes e lojistas especializados que dependem do canal próprio para gerar valor. No ambiente digital atual, competir apenas por preço tornou-se uma estratégia cada vez mais arriscada. Experiência de navegação, qualidade da informação, logística eficiente e diferenciação de portfólio passaram a ser fatores decisivos para atrair e converter o consumidor. SEO, CONTEÚDO E EXPERIÊNCIA GANHAM PROTAGONISMO O relatório reforça que busca orgânica e paga seguem como canais centrais do e-commerce brasileiro, somando quase metade do tráfego total. Para Casa & Móveis, isso significa que conteúdo bem estruturado, imagens de qualidade, descrições técnicas claras e boa performance de SEO deixam de ser diferenciais e passam a ser pré-requisitos competitivos Além disso, a experiência do usuário — desde a velocidade do site até a clareza nas informações de entrega e montagem — exerce impacto direto na decisão de compra. Em um setor onde a jornada é mais longa, cada ponto de fricção representa risco real de abandono. 2026 EXIGIRÁ ESTRATÉGIA, NÃO APENAS VOLUME Os dados de dezembro deixam um recado claro para o setor de móveis: crescer no digital exigirá mais inteligência estratégica e menos dependência de picos promocionais. A retomada passa por
32 moveisdevalor.com.br integração entre canais, fortalecimento da marca, uso mais sofisticado de dados e maior atenção à experiência do consumidor. Para fabricantes, o desafio está em apoiar o varejo com conteúdo, diferenciação e soluções que vão além do produto físico. Para lojistas, o momento pede revisão de mix, investimento em presença digital qualificada e maior domínio da jornada omnichannel. Mais do que um recuo pontual, o desempenho de Casa & Móveis no e-commerce sinaliza uma fase de maturação do consumo, em que eficiência, relevância e estratégia passam a definir quem permanece competitivo no jogo digital. CONTRAPONTO Quando a gente olha com atenção os dados apontados antes, um alerta importante se acende — e ele diz muito mais sobre comportamento do consumidor do que, propriamente, sobre tecnologia ou canais digitais. O consumidor brasileiro não abandonou o consumo de móveis. Ele apenas deixou claro onde prefere comprar. Móvel não é impulso. Móvel envolve toque, comparação, conversa, percepção de qualidade, confiança. E, sobretudo, envolve gente. Por isso, ao contrário de categorias como moda, eletrônicos ou presentes, o móvel continua tendo no varejo físico o seu principal palco de decisão. O e-commerce de móveis cresce quando há promoção forte, Black Friday, picos sazonais. Passado esse momento, o consumidor recua. Ele pesquisa online, sim. Mas decide fora da tela. É preciso analisar as pesquisas considerando os dois aspectos que são relevantes, como mostra este contraponto. VAREJO
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34 moveisdevalor.com.br Tarifaço encolhe as exportações de móveis e gera déficit em 2025 O Brasil encerrou 2025 com déficit na balança comercial de móveis, resultado da diferença entre importações no valor de US$ 950,1 milhões e de exportações de US$ 909,8 milhões. Em números absolutos corresponde a um saldo negativo de US$ 40,3 milhões atribuído, em grande parte, a elevação de tarifas impostas pelo governo dos EUA, causando uma retração de quase 20% nos embarques para o principal mercado. São exatos US$ 49,3 milhões a menos, valor que poderia transformar o déficit em superávit. Países com os quais o Brasil costuma ter boa presença, elevaram substancialmente suas compras ano passado. Caso da Argentina que registrou aumento de 28,8% sobre 2024 (US$ 108,9 milhões), do Paraguai com alta de 27,3% (US$ 50,6 milhões) e Chile com 24,3% (US$ 66,9 milhões). Com volumes menos expressivos, outros mercados surpreenderam positivamente, como México, que elevou os pedidos em quase 60% (para cerca de US$ 40 milhões em 2025). Também estão nesse grupo Porto Rico (43,1%) e Alemanha (+40%). É preciso considerar ainda os esforços de um grupo de países menos tradicionais e de compras irregulares, como a República Tcheca, que em 2025 ampliou as compras em 149%, na faixa de BRASIL DEIXOU DE VENDER US$ 49,3 MILHÕES ANO PASSADO PARA OS EUA, VOLUME CAPAZ DE REVERTER O DESEMPENHO DA BALANÇA COMERCIAL A SOMA TOTAL DAS IMPORTAÇÕES CORRESPONDEU A UM INCREMENTO DE 7,7% SOBRE 2024, FIXANDO UM NOVO PATAMAR PARA COMPRAS NO EXTERIOR DE FRENTE COM OS NÚMEROS Por Guilherme Arruda, jornalista convidado
35 moveisdevalor.com.br US$ 3,7 milhões; de Israel, que aumentou em 249%, na faixa de US$ 1,2 milhão, e do Congo, que em 2024 adquiriu US$ 199 mil e ano passado contabilizou quase US$ 1,9 milhão, alta de 851% - todos com base de comparação muito baixa. Destinos tradicionais do Brasil, como o Reino Unido, Peru e a Bolívia, que costumeiramente aparecem no grupo dos 20 principais mercados compradores de móveis com volumes encorpados, desta vez decepcionaram ao apresentarem recuos de 16,3%, 28,6% e 20,9%, nessa ordem. Pelo terceiro ano seguido, Santa Catarina não consegue sair da faixa de US$ 260 milhões exportados. Em 2025, foram US$ 263,6 milhões, 1,7% acima do ano anterior, insuficiente para manter a liderança nos embarques brasileiros. A vaga foi ocupada pelo Rio Grande do Sul, com US$ 264,7 milhões, mesmo tendo desempenho 2,8% inferior ao de 2024. O que pesou em SC foram os US$ 103,5 milhões que vendeu para os EUA (-12% sobre 2024). Campeã absoluta de vendas para os EUA, São Bento do Sul registrou o menor desempenho em uma década, com exportações de apenas US$ 36,9 milhões, US$ 8,4 milhões a menos em relação ao ano anterior – queda de 18,6%. Para se ter ideia desse tombo, a média anual de embarques para o mercado norteamericano entre 2016 e 2024 situou-se em US$ 64,1 milhões. IMPORTAÇÕES As importações da China não param de bater recorde. Em 2025, o volume foi de US$ 448,3 milhões, alta de 7,1% sobre o ano anterior – foram quase US$ 30 milhões a mais. Para se ter ideia dessa grandeza, a média das compras chinesas entre 2016 e 2024 é de US$ 289,2 milhões. A participação do país bateu em 47,1% sobre o total, praticamente repetindo o mesmo índice do ano anterior – o recorde da década 2016-2025 Cleomar Prunzel, presidente da AHK-RS - Câmara de Comércio Brasil-Alemanha
36 moveisdevalor.com.br continua sendo 2021, com participação de 48,3%. A soma total das importações em 2025, de US$ 950,1 milhões, corresponde a um incremento de 7,7% sobre 2024, estabelecendo um novo patamar nas transações internacionais. Até então, o melhor resultado tinha sido exatamente o ano anterior, com US$ 881,5 milhões. Juntos, os estados de São Paulo e Santa Catarina concentraram 60,2% das compras externas ano passado, somando US$ 572,2 milhões. UNIDADES As exportações físicas cresceram na faixa de 5% a 8% em 2025 sobre 2024, com destaque para colchões, cujos embarques totalizaram 286 mil de unidades (+8,50%), seguido de estofados de madeira, com a remessa de 64,9 mil de unidades (+8,9%) acima do ano anterior. Os destaques negativos nas exportações foram de assentos de madeira, com um recuo de 13,24% e de móveis para dormitórios, com -7,83%. Nas importações, o maior índice de aumento foi na categoria de móveis de madeira (+40,8%), somando 695,2 milhões de peças. Outro destaque foram os estofados de madeira, com 342,2 mil de unidades importadas, alta de 10,9%, e de colchões, com 209,7 mil peças, alta de 9,8% sobre 2024. Móveis para dormitórios e móveis para cozinha foram os únicos com registros negativos, de -7,56% e -17,83%, respectivamente. DE FRENTE COM OS NÚMEROS
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38 moveisdevalor.com.br espaço para o Brasil em nichos como móveis de madeira, produtos sustentáveis e design diferenciado. Importadores interessados em reduzir a dependência asiática tendem a olhar com mais atenção para esses atributos. Na União Europeia, a recuperação econômica deve ser gradual, mas a agenda ambiental surge como fator decisivo. Empresas brasileiras que comprovem rastreabilidade, uso de madeira legal, certificações e práticas ESG ganham vantagem competitiva. Em contrapartida, regulações mais rígidas, como o EUDR, podem limitar o acesso de empresas que ainda não estejam plenamente adaptadas. Além dos EUA, mercados como Portugal, França, Países Baixos e Espanha merecem atenção, assim como oportunidades crescentes no Canadá, México, Reino Unido e países do Oriente Médio, impulsionadas por investimentos imobiliários e consumo de bens duráveis. Segundo a FIESC, acordos comerciais e ajustes tarifários tendem a incentivar a busca por mercados mais sofisticados. Nesse contexto, o sucesso do exportador brasileiro dependerá de design de alto valor agregado, sustentabilidade e inovação para atender nichos cada vez mais exigentes. EXPORTADOR BRASILEIRO DEVE MIRAR NICHOS NA ALEMANHA O mercado alemão de móveis é dominado por fornecedores europeus e asiáticos, com foco em escala e preço. Para o exportador brasileiro, competir em volume não é uma estratégia viável. A oportunidade está em nichos de maior valor agregado, baseadosem design, sustentabilidade e qualidade, avalia Cleomar Prunzel, presidente da AHK-RS – Câmara de Comércio Brasil-Alemanha. O acordo UE-Mercosul, ao prever a redução gradual de tarifas para produtos industrializados, pode ampliar o acesso do móvel brasileiro a um dos mercados mais exigentes do mundo. A combinação entre previsibilidade regulatória e simplificação aduaneira tende a beneficiar empresas com posicionamento claro e proposta diferenciada. Para além das exportações, o acordo também favorece parcerias industriais e investimentos alemães em tecnologia, automação, máquinas e insumos, fortalecendo cadeias produtivas integradas. Pequenas e médias empresas, maioria no setor moveleiro, ganham condições mais favoráveis para iniciar ou ampliar sua atuação internacional. O avanço do tratado, no entanto, segue em compasso de espera. O Parlamento Europeu solicitou uma avaliação jurídica ao Tribunal de Justiça da União Europeia, e a implementação ainda depende da aprovação dos legislativos dos países envolvidos. CAUTELA E FOCO EM NICHOS O cenário das exportações de móveis para Estados Unidos e União Europeia em 2026 será mais desafiador, mas ainda oferece oportunidades para empresas bem posicionadas, avalia a Abimóvel. Nos EUA, o ambiente de consumo tende a permanecer cauteloso, influenciado por juros elevados e ajustes no mercado imobiliário, o que deve limitar volumes, sobretudo em produtos de menor valor agregado. Por outro lado, a diversificação das cadeias globais de suprimentos e a busca por fornecedores mais confiáveis abrem DE FRENTE COM OS NÚMEROS
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40 moveisdevalor.com.br Nova onda de tarifas impostas pelo México impactam o setor A "onda" das tarifas alcançou novos ares, motivando países como o México a reagir frente à instabilidade econômica mundial. O Senado do México aprovou, em dezembro de 2025, o aumento nas tarifas de importação sobre diversos setores, incluindo o mobiliário. A decisão foi tomada em meio à crescente pressão comercial exercida pelos EUA no contexto da renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (T-MEC). As tarifas variam de 5% a 50% sobre 1.463 produtos de 17 setores diferentes, com a média ficando em até 35%, afetando mercados com os quais o país não possui acordo de livre comércio. Entre os setores afetados estão o automotivo, siderurgia, mobiliário, eletrodomésticos, plástico, vestuário, entre outros. Enquanto o governo mexicano argumenta que a medida busca fortalecer a economia nacional, com expectativa de arrecadar US$ 2,5 bilhões adicionais no ano e preservar empregos industriais no país, parte da oposição contra-argumenta que a medida foi elaborada às pressas e que o aumento de custos dos insumos importados pode impactar a inflação e o custo de vida do consumidor mexicano. Outro exemplo de argumento é do Ministério das Relações Exteriores da China – país mais afetado pelas MAIS DE 1.400 PRODUTOS DE INDÚSTRIAS SOFRERÃO TARIFAS ENTRE 5% E 50%, COM MÉDIA DE 35%. SETOR MOVELEIRO É UM DOS MAIS AFETADOS, JUNTO COM SIDERURGIA E ELETRODOMÉSTICOS ENQUANTO O MÉXICO ARGUMENTA QUE A MEDIDA BUSCA FORTALECER A ECONOMIA NACIONAL, OPOSITORES AFIRMAM QUE A ONDA DE PROTECIONISMO É PREJUDICIAL À GLOBALIZAÇÃO ECONÔMICA MERCADO Por João Caetano Guimarães, jornalista
41 moveisdevalor.com.br tarifas –, afirmando que "ir contra a corrente da globalização econômica, buscando o protecionismo, é prejudicial aos outros e não beneficia a si mesmo". ABIMÓVEL SE POSICIONA DIANTE DAS NOVAS TARIFAS O presidente da Abimóvel, Irineu Munhoz, afirma que a atual onda de tarifaços no comércio internacional reflete um cenário de instabilidade econômica e política global, marcado pelo enfraquecimento do multilateralismo, pelo aumento de disputas geopolíticas e pela adoção de políticas comerciais mais protecionistas. “Nesse contexto, as tarifas deixaram de ser apenas instrumentos econômicos e passaram a ser também ferramentas de negociação política e industrial, afetando diretamente cadeias produtivas e fluxos de comércio”. Indagado sobre os impactos na indústria brasileira, Irineu afirma que as tarifas apresentam impacto direto. Segundo ele, as tarifas elevam o preço final do móvel brasileiro no mercado mexicano; reduzem margens das empresas exportadoras, afetam a competitividade das indústrias e produtos brasileiros e regionais; e limitam a expansão de volumes exportados, especialmente em produtos de médio valor agregado. O processo de produção (pré-exportação) também é afetado pelas tarifas. Os efeitos da decisão mexicana se refletem em impactos significativos sobre o emprego, especialmente em regiões fortemente dependentes do setor moveleiro, como os polos no Sul e Sudeste do Brasil. Tais incertezas levam as indústrias a reduzirem ou ajustarem seus volumes de produção, postergar investimentos e operar com maior cautela na geração de empregos. “Como consequência, há uma crescente necessidade de adequação da mão de obra, com maior demanda por trabalhadores qualificados, capazes de operar novas tecnologias, atender exigências internacionais e adaptar produtos a diferentes mercados”, explica Irineu. O presidente da Abimóvel também ressalta que, no curto e médio prazos, a tendência é de continuidade da instabilidade no comércio internacional, com novos tarifaços e disputas comerciais. Irineu Munhoz, presidente da Abimóvel Acordos como Mercosul/União Europeia contribuem para estabilidade econômica de países impactados com tarifas
42 moveisdevalor.com.br Para Irineu, o Brasil pode reagir de forma mais coordenada ao cenário de tarifaços ao combinar uma diplomacia estatal ativa, diplomacia empresarial estruturada e profissionalizada, estratégias de diversificação de mercados e políticas de fortalecimento da competitividade industrial interna. “Em um ambiente global volátil, a atuação mútua entre governo, entidades representativas e empresas é essencial para reduzir riscos, preservar mercados e garantir a sustentabilidade das exportações brasileiras”, afirma. Além da mudança de postura, Irineu diz que o governo precisa avançar em acordos comerciais (como Mercosul–UE), garantir previsibilidade regulatória, investir em infraestrutura, logística e redução do Custo Brasil, além de apoiar a indústria exportadora e a qualificação da mão de obra. Para o setor industrial moveleiro, Irineu destaca a importância da diversificação de mercados; investir em inovação, design e sustentabilidade; e fortalecer o planejamento estratégico, inteligência comercial e qualificação contínua. “Em um mundo marcado por instabilidade econômica e comercial, a resiliência da indústria moveleira brasileira dependerá da capacidade de adaptação, cooperação institucional, diplomacia industrial e do fortalecimento estrutural do setor”, finaliza. TARIFAS APLICADAS PELO MÉXICO NA IMPORTAÇÃO DE MÓVEIS TARIFA DE 35% Produtos com maior carga de importação • Móveis de metal para escritórios • Demais móveis de metal • Mesas técnicas e pranchetas • Móveis de outros materiais (inclui mistos e não especificados) • Sommiers (estrados para camas) TARIFA DE 25% Maior parte do portfólio moveleiro • Móveis de madeira para escritórios • Estações de trabalho • Móveis de madeira para cozinhas • Móveis de madeira para dormitórios • Púlpitos • Móveis de plástico • Móveis de bambu • Móveis de ratã (rattan) • Partes e componentes de móveis Fonte: Poder Legislativo Federal do México LEITURA ESTRATÉGICA A estrutura tarifária mexicana impõe alíquotas elevadas justamente sobre categorias de maior valor agregado, como móveis metálicos, sommiers e itens técnicos. Já o mobiliário residencial de madeira concentra-se na faixa intermediária de 25%, indicando um ambiente seletivo para importações, com impacto direto sobre competitividade, preço final e estratégias de acesso ao mercado. "Diante disso, é fundamental uma atuação coordenada entre governo e setor produtivo". A fim de proteger o setor de mais efeitos negativos, a entidade promove a internacionalização das empresas por meio de feiras, missões comerciais e projetos de exportação, com foco na diversificação de mercados e na abertura de novas oportunidades comerciais. “Outro eixo central é a atuação institucional e de diplomacia industrial, com diálogo permanente com o governo e órgãos de comércio exterior para reduzir impactos de barreiras tarifárias e regulatórias e fortalecer a indústria nacional”, explica Irineu. Para ele, essas iniciativas contribuem para mitigar os efeitos de medidas protecionistas e posicionar a cadeia moveleira brasileira de forma mais competitiva no cenário global. O QUE O BRASIL PODE FAZER DIANTE DOS FATOS? A resposta ao crescente protecionismo industrial não pode se limitar à diplomacia tradicional de Estado. A diplomacia empresarial torna-se cada vez mais estratégica, na qual empresas, entidades setoriais e associações industriais atuam de forma coordenada com o governo para defender interesses econômicos, dialogar com parceiros internacionais e antecipar riscos comerciais. MERCADO
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