MV Norte & Nordeste

43 — que levou a Coleção Jangada ao cenário internacional. Foi ali que conheci Vikentios Kakakis, presidente do Sindmóveis de Pernambuco e organizador da feira. O concurso UtiDesign era uma estratégia para aproximar designers dos fabricantes locais e fortalecer a competitividade regional frente às grandes indústrias do Sul. Vik ficou indignado com a ausência total de designers locais e da academia. Acabei sendo “adotado” pela associação e, poucos meses depois, mudei-me para Recife — decisão que gerou resistência e protestos de alguns colegas, animosidade que Vik fazia questão de alimentar com ironia e franqueza. Filho de imigrantes gregos, Vik tinha uma admiração genuína pelo território e pela cultura local. Eu estava profundamente envolvido em pesquisas sobre cultura popular como fonte de inovação — o chamado “fator local”. Vik percebeu rapidamente o potencial estratégico dessa abordagem e passou a apoiá-la com entusiasmo. Dessa convergência nasceu a Coleção Jangada, inspirada nas embarcações artesanais do Nordeste. O projeto começou com cadeiras e logo se expandiu para mesas, aparadores e conjuntos de jantar, fabricados por empresas locais. A coleção ganhou projeção nacional, participou de concursos e chegou até o Salão do Móvel de Milão, resultado de uma rede improvável de colaborações entre designers, empresários, sindicatos e comunicadores. Ao mesmo tempo, percorremos Pernambuco absorvendo referências da cultura popular. Em Gravatá, realizamos oficinas de design participativo com marceneiros locais, explorando elementos do sertão: carrocerias de caminhão, portões, cercas, vestimentas de vaqueiro. Foi ali que surgiu a inspiração mais ousada: a figura de Lampião e do cangaço. Troféu Vikentios Kakakis, instituido para homenagear personalidades que contribuem com a indústria moveleira do Nordeste Cadeira Lampião A partir de um esboço rápido — chapéu, cartucheira e rifle transformados em cadeira — nasceu a peça que mais tarde ficaria conhecida como “cadeira Lampião”, oficialmente rebatizada de Coleção Cangaço. Esteticamente controversa, conceitualmente potente, a peça não vendeu uma única unidade. Mas virou assunto. Circulou por revistas, programas de TV e feiras nacionais. Mais do que um produto, tornou-se um manifesto. Sem perceber, havíamos criado um símbolo de pertencimento territorial, um objeto que traduzia identidade, coragem e criatividade. Hoje, uma miniatura dessa cadeira é o troféu entregue anualmente aos empresários mais destacados do setor moveleiro pernambucano. A “cadeira Lampião” não homenageia um bandido, mas um espírito empreendedor forjado em território agreste, criativo e resiliente. Um legado que deve muito à visão, ousadia e liderança de Vikentios Kakakis. Imagino Vik aplaudindo lá do alto. E agradeço ao Ari pela anedota que me fez revisitar e contar esta história. * Jorge Montana é designer, professor e escritor. Mora em Bogotá, Colômbia

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