Móveis de Valor - Edição 255

8 moveisdevalor.com.br SE O DESIGNER PARAR DE SE EXIBIR, O MÓVEL FARÁ SENTIDO ÀS PESSOAS Tenho recebido provocações de alguns leitores perguntando por que não falo sobre design & designers. Faço isso, inspirado em um artigo recente que me chamou atenção pela clareza com que o autor revela o que realmente é o design. Ao descrever o trabalho da designer Jill Erwin, Ray Allegrezza (editor-chefe da Furniture Today), escancara uma verdade que muita gente no setor ainda insiste em ignorar: design não é sobre fazer algo bonito. É sobre fazer algo inevitável. E isso muda tudo. O design ideal é aquele que, quando você olha, não te chama atenção pelo excesso, mas pela precisão. Você não pensa “que criativo!”. Você pensa: “não poderia ser de outro jeito”. E esse é o nível mais alto do design. Porque por trás dessa aparente simplicidade existe profundidade, repertório e, principalmente, decisão de colocar. Mas, principalmente, decisão de não colocar. Existe hoje uma inflação estética no mobiliário. Muita peça tentando provar que é design. Muito detalhe gritando, muito material brigando, muita forma querendo aparecer mais do que a função. É o design que pede aplauso (ou prêmio) – e não o design que resolve. E quando o móvel precisa explicar demais o que ele é, provavelmente ele falhou. O bom design não se explica. Ele se revela no uso. Ele aparece na ergonomia que funciona sem você perceber, na proporção que acolhe, no material que faz sentido, não porque está na tendência, mas porque pertence àquela peça. Por Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor Dar vida a um móvel não é sobre desenhar algo diferente. É sobre entender profundamente para quem a peça existe, onde a peça vai viver e qual papel aquela peça precisa cumprir. Um sofá não é só um sofá. É descanso, é convivência, é pausa, é refúgio. Se o design não parte dessa compreensão, ele vira só volume revestido. Design de verdade exige contenção. Exige saber parar antes do excesso. Exige editar, cortar, simplificar. Porque, no fim, sofisticação não é adicionar camadas, é retirar o que não precisa estar ali. E isso é difícil. Muito mais difícil do que seguir tendência, do que replicar referência, do que “dar uma incrementada” para parecer mais elaborado. Talvez por isso exista tanto designer que se esforça demais. O problema é que o mercado começa a pagar esse preço. Quando tudo vira “design”, nada mais se destaca. O consumidor não reconhece valor, só vê mais do mesmo com nomes diferentes. Por outro lado, quando o design é bem resolvido, ele muda a régua. Eleva a expectativa. Faz o cliente entender, mesmo que intuitivamente, o que é qualidade. Se existe um caminho para o design no mobiliário – e existe – ele passa por menos vaidade e mais intenção. Menos ruído e mais clareza. Menos “olha pra mim” e mais “faz sentido pra você”. Porque no fim das contas, design não é sobre o designer. É sobre o que a peça se torna na vida de quem usa. E quando isso acontece, o móvel deixa de ser produto e passa a ser experiência.

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