Móveis de Valor - Edição 255

ANO 25 • EDIÇÃO 255 • ABRIL DE 2026 Veja um conteúdo alémda informação @moveisdevalor por ONDE O SETOR MOVELEIRO GANHA VOZ HÁ 25 ANOS

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6 moveisdevalor.com.br Por Inalva Corsi, editora N esta edição comemoramos 25 anos da revista Móveis de Valor, e a entrega não poderia ser outra que não uma edição recheada de conteúdo de alta qualidade. Afinal, celebrar 25 anos da revista é, antes de tudo, reafirmar um compromisso que atravessa gerações, o de entregar informação relevante, qualificada e conectada com o que realmente move o setor moveleiro. Desde a edição de estreia, quando destacávamos que a intermodalidade já despontava como uma alternativa viável de transporte e que a internet teria papel decisivo na redução dos custos de intermediação, ficou claro que nossa vocação nunca foi apenas registrar o presente, mas interpretar sinais, antecipar movimentos e traduzir tendências em conteúdo estratégico para toda a cadeia. Ao longo dessas duas décadas e meia, consolidamos um posicionamento editorial pautado por um propósito simples, porém poderoso: informar e conectar. Conectar o fornecedor ao fabricante, a indústria ao varejo, o marceneiro à revenda, o designer às tendências e o representante às oportunidades que desenham o futuro do mercado. Mais do que narrar o setor, buscamos ser parte ativa de sua evolução. Nesta edição comemorativa, reunimos conteúdos que refletem esse olhar atento e abrangente. Trazemos análises sobre os desdobramentos da economia, da geopolítica, insights sobre marketing e gestão, a cobertura das principais feiras nacionais e internacionais e um especial dedicado às salas, ambiente que hoje traduz, como poucos, as transformações no comportamento do consumidor. Como parte dessa nova fase, apresentamos também o novo portal da Móveis de Valor: mais moderno, responsivo e alinhado à dinâmica digital que o setor exige. Um espaço pensado para ampliar o diálogo com você, leitor, com atualização diária, acesso às nossas publicações; e um Hub de Inteligência Colaborativa, que reúne especialistas e promove reflexões sobre os temas mais relevantes do mercado. Celebrar 25 anos é olhar para trás com orgulho, mas, sobretudo, seguir adiante com a mesma inquietação que nos trouxe até aqui. Porque, se o setor se transforma, nós evoluímos, conectando ideias, pessoas e negócios. Boa leitura e seguimos juntos, sempre conectados! REDAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO Rua Dep. Estefano Mikilita, 125 - 3º andar CEP 81070-430 - Portão Curitiba – PR – Brasil CONTATO Fone (41) 99912-9877 www.moveisdevalor.com.br moveisdevalor@moveisdevalor.com.br DIRETORES Ari Bruno Lorandi aribruno@moveisdevalor.com.br Inalva Corsi inalvacorsi@moveisdevalor.com.br ADMINISTRAÇÃO/FINANÇAS Juliana Pinheiro financeiro@moveisdevalor.com.br REDAÇÃO Inalva Corsi – 3035 PR Jornalista Responsável inalvacorsi@moveisdevalor.com.br Natalia Concentino – 10431 PR natalia@moveisdevalor.com.br João Caetano Guimarães caetano@moveisdevalor.com.br Guilherme Arruda – 5955 RS Jornalista convidado guilherme@moveisdevalor.com.br DIREÇÃO DE ARTE E DIAGRAMAÇÃO Bruna Rosário arte@moveisdevalor.com.br ASSINATURAS E CIRCULAÇÃO assina@moveisdevalor.com.br COMERCIAL – SUL Inalva Corsi - (41) 99912-9877 | 99991-2974 inalvacorsi@moveisdevalor.com.br COMERCIAL – SUDESTE Cidinha Leal - (17) 98114-3666 cidinha@moveisdevalor.com.br CARTA DA EDITORA @moveisdevalor Acesse a versão digital desta edição

7 moveisdevalor.com.br SUMÁRIO NOSSA CAPA Ilustra capa desta edição mesa de jantar Cacau e cadeiras Jupanã, da Ornae/Cimol, de Linhares (ES) (27) 3372-6161 www.cimol.ind.br 54 FEIRAS E EVENTOS CIFF e CIFM fazem da China o centro do universo moveleiro 60 FEIRAS E EVENTOS O design “made in Brazil” prospera novamente em Milão 64 ESPECIAL SALAS Salas passaram de vitrine social para espaço de viver 86 MERCADO China muda o jogo e pode reposicionar o setor 88 MERCADO Mercosul-UE redesenha o jogo para o móvel brasileiro 90 TECNOLOGIA Bloqueios no WhatsApp Business acendem alerta no varejo 94 DESTAQUE INDÚSTRIA Unique assume posto de marca premium na Plumatex 96 MATÉRIA-PRIMA Mercado interno sustenta o setor de painéis de madeira 14 DE FRENTE COM OS NÚMEROS A arte de prosperar em um país com crédito escasso 18 MARKETING Pré-venda aponta novo modelo no setor moveleiro 22 INDÚSTRIA Produção de móveis despenca no início de 2026 24 ECONOMIA Redução da jornada eleva impactos para o setor 26 ECONOMIA Logística em crise expõe limites da Globalização 30 GESTÃO Sucessão não é herança, e exige preparo prévio 34 FEIRAS E EVENTOS Yes Móvel Show revela a força de uma feira em São Paulo SEÇÕES 8 CÁ ENTRE NÓS Se o designer parar de se exibir, o móvel fará sentido às pessoas 10 PONTO DE VENDA E-commerce encolhe, mas amadurece no Brasil 74 BED REPORT Indústria colchoeira enfrenta pressão global e incerteza 82 BED REPORT Somnigroup avança no acordo para compra da Leggett & Platt 84 ARTIGO Especialista aponta sonhos e pesadelos da IA no cotidiano 92 DESTAQUE DE CAPA Cimol celebra 35 anos com foco em salas de jantar 98 TRILHA ESG Florestas plantadas geram eficiência e valor para a indústria 106 NOTAS INDÚSTRIA Exportações de móveis caem e pressão externa preocupa

8 moveisdevalor.com.br SE O DESIGNER PARAR DE SE EXIBIR, O MÓVEL FARÁ SENTIDO ÀS PESSOAS Tenho recebido provocações de alguns leitores perguntando por que não falo sobre design & designers. Faço isso, inspirado em um artigo recente que me chamou atenção pela clareza com que o autor revela o que realmente é o design. Ao descrever o trabalho da designer Jill Erwin, Ray Allegrezza (editor-chefe da Furniture Today), escancara uma verdade que muita gente no setor ainda insiste em ignorar: design não é sobre fazer algo bonito. É sobre fazer algo inevitável. E isso muda tudo. O design ideal é aquele que, quando você olha, não te chama atenção pelo excesso, mas pela precisão. Você não pensa “que criativo!”. Você pensa: “não poderia ser de outro jeito”. E esse é o nível mais alto do design. Porque por trás dessa aparente simplicidade existe profundidade, repertório e, principalmente, decisão de colocar. Mas, principalmente, decisão de não colocar. Existe hoje uma inflação estética no mobiliário. Muita peça tentando provar que é design. Muito detalhe gritando, muito material brigando, muita forma querendo aparecer mais do que a função. É o design que pede aplauso (ou prêmio) – e não o design que resolve. E quando o móvel precisa explicar demais o que ele é, provavelmente ele falhou. O bom design não se explica. Ele se revela no uso. Ele aparece na ergonomia que funciona sem você perceber, na proporção que acolhe, no material que faz sentido, não porque está na tendência, mas porque pertence àquela peça. Por Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor Dar vida a um móvel não é sobre desenhar algo diferente. É sobre entender profundamente para quem a peça existe, onde a peça vai viver e qual papel aquela peça precisa cumprir. Um sofá não é só um sofá. É descanso, é convivência, é pausa, é refúgio. Se o design não parte dessa compreensão, ele vira só volume revestido. Design de verdade exige contenção. Exige saber parar antes do excesso. Exige editar, cortar, simplificar. Porque, no fim, sofisticação não é adicionar camadas, é retirar o que não precisa estar ali. E isso é difícil. Muito mais difícil do que seguir tendência, do que replicar referência, do que “dar uma incrementada” para parecer mais elaborado. Talvez por isso exista tanto designer que se esforça demais. O problema é que o mercado começa a pagar esse preço. Quando tudo vira “design”, nada mais se destaca. O consumidor não reconhece valor, só vê mais do mesmo com nomes diferentes. Por outro lado, quando o design é bem resolvido, ele muda a régua. Eleva a expectativa. Faz o cliente entender, mesmo que intuitivamente, o que é qualidade. Se existe um caminho para o design no mobiliário – e existe – ele passa por menos vaidade e mais intenção. Menos ruído e mais clareza. Menos “olha pra mim” e mais “faz sentido pra você”. Porque no fim das contas, design não é sobre o designer. É sobre o que a peça se torna na vida de quem usa. E quando isso acontece, o móvel deixa de ser produto e passa a ser experiência.

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10 moveisdevalor.com.br E-COMMERCE ENCOLHE, MAS AMADURECE NO BRASIL Após anos de forte expansão, o número de lojas virtuais no país recua pelo segundo ano seguido, passando de mais de 2,2 milhões em 2024 para cerca de 2,1 milhões em 2026. O movimento reflete uma seleção natural do mercado: operações menos estruturadas perdem espaço diante de consumidores mais exigentes e maior concorrência. Em contrapartida, o setor se torna mais profissional, com destaque para negócios de nicho e propostas bem definidas. VAREJO PERDE FÔLEGO E ACENDE ALERTA O varejo brasileiro inicia 2026 em desaceleração frente ao mesmo período do ano anterior, refletindo um consumo mais seletivo, influenciado por crédito restrito e menor impulso pós-festas. O setor segue resiliente, mas mais dependente de estímulos e estratégias comerciais assertivas. Regionalmente, o desempenho é desigual: algumas áreas ainda crescem, enquanto outras já apresentam retração, sobretudo onde o consumo financiado pesa mais. E-COMMERCE TEM SÓ 3 SEGUNDOS PARA CONVENCER CONSUMIDOR Três segundos podem definir a permanência ou abandono de uma compra online. Dados da Google indicam que mais da metade dos usuários desiste quando a página demora além desse tempo para carregar. Em períodos de alto fluxo, a pressão sobre atendimento, pagamento, logística e pós-venda aumenta. Além da velocidade, cresce a exigência por transparência: 95% dos consumidores querem entender decisões tomadas por inteligência artificial, com explicações claras e simples. MERCADO LIVRE ACELERA COM R$ 57 BI E MIRA O CONSUMO O Mercado Livre anunciou investimento de R$ 57 bilhões no Brasil em 2026, alta de 50% sobre o ano anterior. O foco está em logística, tecnologia e serviços financeiros. O plano inclui 14 novos centros de distribuição, totalizando 42 unidades, além do fortalecimento do marketplace e do Mercado Pago. A iniciativa deve gerar cerca de 10 mil empregos, principalmente nessas áreas. NOSSO ADEUS A WANDERLEI BERLANDA, FUNDADOR DA LOJAS BERLANDA Wanderlei Berlanda, fundador da Lojas Berlanda, faleceu aos 61 anos no domingo de Páscoa (05/04). Ao lado do irmão Nilso, construiu uma das maiores redes de móveis e eletrodomésticos do Sul do país, com origem em 1991, em Curitibanos (SC), e hoje com cerca de 194 lojas. Sua atuação também se estendeu a outros setores, como o automotivo. PONTO DE VENDA

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14 moveisdevalor.com.br A arte de prosperar em um país com crédito escasso O desemprego está no menor nível desde o início da série histórica, a renda familiar subiu um pouco, a inflação está sob controle. Então por que o mercado ainda hesita em acelerar? O problema é o endividamento das pessoas que ligou o sinal de alerta para quem produz e vende móveis. A combinação de juros altos, que encarece o parcelamento, e o peso das dívidas sobre o orçamento doméstico em 29% (Banco Central) – recorde em duas décadas – formam uma barreira de freios adicionais ao mercado de consumo. Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Confederação Nacional do Comércio, mostra que o nível dos endividadas atingiu patamar inédito nos primeiros meses de 2026 com cerca de 80,2% das famílias com algum tipo de dívida. O vilão é o cartão de crédito (85%) seguido do carnê de loja (16%) e crédito pessoal (12%). A Serasa (março/abril 2026) contabiliza 81 milhões de pessoas com o nome negativado: 42% são pessoas que limparam o nome no passado e voltaram a atrasar contas em menos de 12 meses. Resumindo: a fragilidade financeira do consumidor seguirá no radar das empresas até, pelo menos, o final desse ano e isso impõe o desafio COM 80,2% DAS FAMÍLIAS ENFRENTANDO DÍVIDAS RECORDES, O SETOR MOVELEIRO NAVEGA EM UM CENÁRIO DE RENDA SUFOCADA E CRÉDITO ESCASSO A ESTRATÉGIA IMPÕE PROGRAMAS DE RENEGOCIAÇÃO E NOVOS RECURSOS DO FGTS PARA REINSERIR CONSUMIDORES NO MERCADO DE CONSUMO DE FRENTE COM OS NÚMEROS Por Guilherme Arruda, jornalista convidado

15 moveisdevalor.com.br de intensificar estratégias para sustentar o volume de vendas próximo às metas estabelecidas. Não será fácil. O SALTO DA DÍVIDA Cruzando os dados consolidados da Serasa Experian e da CNC de março e abril de 2026, é possível identificar cerca de 12,5 a 13 milhões de brasileiros estão, tecnicamente, com o CPF "verde" para novas operações. Esse grupo representa uma injeção potencial de R$ 22 bilhões no mercado de consumo em 2026. Como 2026 é ano eleitoral, o governo avisa que vai socorrer famílias endividadas ao permitir que trabalhadores usem até 20% do FGTS para pagar dívidas com desconto que pode chegar, em alguns casos, a 80%. A medida pode injetar R$ 7 bilhões na economia. Analistas atribuem a origem do salto no endividamento ao aumento do valor do Bolsa Família, em 2022, que serviu como "passaporte" para a população de baixa renda acessar o mercado de crédito: bancos reduziram restrições, impulsionando cartões e empréstimo consignado. Assim, o benefício foi transformado em uma ferramenta de comprometimento de renda a longo prazo. A SOLIDARIEDADE DA LEBES "Há uma demanda por crédito que nos faria vender mais, mas o consumidor está muito endividado e a gente tem sido muito conservador na aprovação de crédito”, disse Renato Franklin, presidente da Casas Bahia. Não é o caso da Lebes, rede gaúcha de móveis e eletros, com 320 lojas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. “Aqui, se a pessoa está no SPC e paga, vendo de novo para ele”, diz Otelmo Drebes, presidente do Grupo Lebes. “É um paliativo para resolver uma situação momentânea”, acrescenta. O avanço do consumo depende muito de fundamentos sólidos Liquidez em alta R$ 742 bilhões em estímulos (5,4% do PIB) sustentam a atividade, mas pressionam inflação e juros. Renda comprometida Famílias destinam 29% da renda a dívidas — 10,38% apenas em juros. Inadimplência elevada O calote no rotativo do cartão atinge 63,5%, endurecendo o crédito no varejo. Ciclo travado Juros altos e baixa produtividade limitam o avanço real da renda e do consumo. Pressão política Com 46% percebendo piora econômica, crescem medidas de alívio imediato com viés eleitoral. O PANORAMA DE 2026: ENTRE ESTÍMULO E ENDIVIDAMENTO

16 moveisdevalor.com.br Na tentativa de sustentar o crescimento, o governo projeta um pacote de estímulos que soma R$ 742 bilhões, com medidas como ampliação do crédito à classe média, subsídios habitacionais, aumento das concessões do BNDES e expansão do consignado no setor privado. A estratégia também inclui o uso de fundos públicos e privados para impulsionar o crédito e os gastos. Paralelamente, avançam iniciativas de renegociação de dívidas, como o Desenrola 2.0 (focado em crédito rotativo, cheque especial e empréstimos sem garantia) com descontos que podem chegar a 90%. Programas como Serasa Limpa Nome e mutirões da Febraban seguem na mesma linha, ampliando as condições de negociação para consumidores endividados. No fim, o avanço do consumo depende menos de estímulos pontuais e mais de fundamentos sólidos: ajuste fiscal, simplificação tributária e ganhos de produtividade. Sem isso, a renda das famílias seguirá exposta a ciclos curtos, limitando a demanda. Para indústria e varejo, o caminho passa por eficiência operacional, gestão de risco e novos modelos de crédito direto, capazes de transformar a venda em relacionamento financeiro e sustentar um consumo mais previsível e saudável no longo prazo. Com 80 milhões de endividados, vender exige mais do que preço, exige inteligência de crédito. O varejo que ajuda o consumidor a recuperar fôlego constrói valor e fidelidade. Crédito além do cartão Pix parcelado e crediário próprio aliviam o limite estourado e destravam a compra. Mix essencial e acessível Aposte no trade-down inteligente: produtos com bom custo-benefício para manter o consumo ativo. Venda consultiva Oriente o cliente, ofereça condições sustentáveis e proteja a renda, isso gera confiança. Da renegociação à recompra Aproveite programas de limpeza de nome para transformar crédito recuperado em nova venda. À PROCURA DO SANTO GRAAL DO VAREJO DE FRENTE COM OS NÚMEROS

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18 moveisdevalor.com.br Pré-venda aponta novo modelo no setor moveleiro Em um ambiente cada vez mais pressionado por custos, incertezas e oscilações de demanda, o setor moveleiro internacional começa a consolidar um novo caminho: vender antes de produzir e, mais do que isso, decidir antes de errar. Nos Estados Unidos, o modelo de pré-venda estruturada – especialmente observado em eventos como o circuito de High Point – vem deixando de ser uma prática pontual para se tornar um verdadeiro sistema de gestão da demanda. Mais do que antecipar pedidos, trata-se de alinhar indústria e varejo em torno de decisões mais seguras, reduzindo desperdícios e aumentando a eficiência ao longo de toda a cadeia. E a pergunta que começa a ganhar força é inevitável: por que o Brasil ainda não faz isso de forma estruturada? MENOS APOSTA, MAIS VALIDAÇÃO Diferente do modelo tradicional – em que a indústria lança, produz, distribui e só então descobre se acertou – a pré-venda inverte a lógica. Antes do lançamento oficial, as indústrias apresentam suas coleções a clientes estratégicos, colhem percepções, ajustam produtos e, principalmente, iniciam negociações. Não se trata apenas de exposição, mas de um ambiente de decisão. Na prática, o que está em jogo é simples: testar antes de escalar. Esse movimento permite que ajustes finais sejam feitos com base em demanda real, e não em suposições – algo que, no cenário atual, faz toda a diferença. ESTRATÉGIA JÁ CONSOLIDADA NOS EUA REDUZ RISCOS, ORGANIZA A PRODUÇÃO E PODE TRANSFORMAR A RELAÇÃO ENTRE INDÚSTRIA E VAREJO NO BRASIL MARKETING Por Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor

19 moveisdevalor.com.br PRODUZIR MELHOR, NÃO MAIS Um dos principais ganhos do modelo está dentro da fábrica. Com pedidos antecipados ou, ao menos, sinais claros de interesse, a indústria passa a operar com maior previsibilidade, menor risco de estoque parado e melhor planejamento de insumos e produção. Em vez de apostar em grandes volumes e torcer pela venda efetiva no varejo, o fabricante passa a produzir com base em demanda validada. Isso representa uma mudança relevante de mentalidade: sair da lógica de empurrar produto para adotar uma lógica de fluxo. O VAREJO TAMBÉM GANHA – E MUITO Se para a indústria o ganho está na eficiência, para o varejo está na redução de risco e no aumento de giro. Ao participar da pré-venda, o lojista acessa produtos antes da concorrência, garante melhores condições comerciais, organiza seu calendário de compras e reduz necessidade de estoque elevado. Mais do que comprar antes, ele passa a comprar melhor. Nos EUA, esse movimento tem sido impulsionado justamente por um varejo mais cauteloso, que busca previsibilidade em meio a um consumo mais instável. O VERDADEIRO VALOR: INTELIGÊNCIA DE MERCADO Talvez o ponto mais subestimado da pré-venda seja sua capacidade de gerar informação. Cada interação com o lojista revela quais produtos têm maior aceitação, quais faixas de preço funcionam, quais acabamentos têm mais aderência e quais apostas devem ser descartadas. Na prática, a pré-venda se transforma em algo raro no setor: uma pesquisa de mercado que já nasce monetizada. POR QUE O BRASIL AINDA NÃO ESTRUTUROU ESSE MODELO? Apesar existir alguns movimentos isolados – principalmente em polos mais organizados – o setor moveleiro brasileiro ainda opera majoritariamente sob uma lógica tradicional: lançamentos amplos, produção antecipada, e total dependência de giro posterior. Mas é preciso admitir que no Brasil existem alguns entraves para implementação da pré-venda. Entre os principais entraves estão a cultura comercial baseada em volume, a baixa integração entre indústria e varejo, a dependência de feiras como único momento de decisão e a pouca utilização de dados na validação de produtos. Mas é fato comprovado que esse cenário começa a mostrar sinais de esgotamento. Ou não? Cada interação com o lojista revela quais produtos têm maior aceitação

20 moveisdevalor.com.br O CAMINHO POSSÍVEL Importar o modelo americano de forma literal dificilmente funcionaria. Mas adaptar seus princípios é não só viável – como necessário. Alguns caminhos já se mostram claros: Rodadas estratégicas com clientes-chave Encontros presenciais ou digitais com foco em decisão, não exposição. Portfólio mais enxuto e validado Menos lançamentos, mais assertividade. Condições comerciais vinculadas à antecipação Benefícios reais para quem decide antes. Comece pequeno, mas comece certo Selecione 5 a 8 produtos estratégicos — nada de portfólio completo. A pré-venda funciona melhor com foco e clareza, não com excesso de opções. Convide os clientes que realmente decidem Esqueça volume de público. Priorize lojistas com histórico, capacidade de compra e influência regional. Pré-venda é decisão, não vitrine. Estruture um “ambiente de decisão” Não é showroom tradicional. É reunião de negócio. Apresente proposta de valor, preço-alvo, prazo de entrega e diferenciais comerciais. Crie incentivo real para antecipação Sem benefício claro, não há pré-venda. Funciona bem: com desconto progressivo, prioridade de entrega, exclusividade regional e/ou condições comerciais diferenciadas. Venda compromisso, não produto O objetivo não é só gerar pedido, mas sinalizar demanda. Use níveis de adesão para decidir: Produzir; ajustar; ou descartar o item. PRÉ-VENDA: 10 PASSOS PARA SAIR DO DISCURSO E IMPLEMENTAR Produção orientada por demanda Especialmente relevante em estofados e linhas com variação. A MUDANÇA REDEFINE O JOGO No fundo, a pré-venda não é sobre vender antes. É sobre errar menos depois. E, em um setor onde margens são pressionadas, estoques são caros e o consumidor está mais seletivo, essa pode ser a diferença entre crescer com consistência ou operar no limite. O movimento já começou fora do Brasil. A questão agora é quem, por aqui, vai entender primeiro que o futuro do setor não está em vender mais – mas em vender com mais inteligência. MARKETING Ajuste antes de escalar Feedback recebido? Ajuste imediatamente.Pré-venda sem correção é só antecipação de erro. Produza com base no que foi validado Aqui está o ganho real: menos estoque parado, mais giro, melhor uso da fábrica. Use os dados como ativo estratégico Registre tudo: Interesse por produto; faixa de preço aceita; objeções recorrentes. Isso vale mais do que a venda em si. Integre comercial, produto e produção Pré-venda não é ação do comercial. É estratégia da empresa. Se cada área trabalhar isolada, o modelo quebra. Meça o que importa Indicadores-chave: Taxa de conversão da pré-venda; giro dos itens validados; redução de estoque encalhado; tempo entre pedido e entrega. Insight final Pré-venda não é sobre vender antes. É sobre decidir melhor o que merece ser vendido.

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22 moveisdevalor.com.br Produção de móveis despenca em 2026 A indústria brasileira de móveis iniciou 2026 em retração. De acordo com dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF/IBGE), o setor acumula queda de -7,5% no primeiro bimestre do ano, sinalizando um cenário ainda desafiador para fabricantes em todo o país. O resultado reforça a leitura de que o segmento atravessa um período de ajuste, após oscilações de demanda e pressão sobre estoques ao longo dos últimos meses. DESEMPENHO DESIGUAL ENTRE OS ESTADOS O recorte regional evidencia um comportamento heterogêneo entre os principais polos moveleiros do Sul do país, com diferenças importantes de intensidade na queda que no Paraná foi de -4,7%, Rio Grande do Sul -2,1% e Santa Catarina recuou -22,6%, o maior tombo desde que o IBGE começou a divulgar os números da indústria catarinense, muito acima da média nacional. A desaceleração mais intensa da atividade industrial, possivelmente está associada a fatores como, maior exposição a mercados externos, desaceleração em segmentos específicos, e ajustes mais bruscos na produção. A magnitude da queda sugere um movimento mais profundo do que um simples ajuste pontual, o que coloca o estado no centro das atenções neste início de ano. PR E RS MOSTRAM MAIOR RESILIÊNCIA Por outro lado, Paraná e Rio Grande do Sul apresentam resultados menos negativos, indicando maior estabilidade operacional no período. No caso do Rio Grande do Sul, a retração de -2,1% aponta para um cenário de menor volatilidade, enquanto o Paraná mantém um desempenho intermediário, ainda impactado, mas sem perdas tão acentuadas. Apesar do resultado negativo, o movimento não caracteriza uma crise estrutural, mas sim um processo de acomodação da indústria, marcado por desaceleração do ritmo produtivo, reequilíbrio de estoques ao longo da cadeia, e demanda ainda irregular no varejo. Esse cenário é típico de transição de ciclo, em que a indústria reduz intensidade para alinhar produção ao consumo real. PERSPECTIVA DE RECUPERAÇÃO GRADUAL A leitura para os próximos meses é de uma retomada lenta e desigual. O desempenho regional já indica que a recuperação não será homogênea, e fatores como posicionamento de mercado, mix de produtos e exposição a diferentes canais tendem a influenciar diretamente os resultados. Para a indústria, o desafio será equilibrar produção, manter competitividade e capturar eventuais sinais de retomada da demanda sem gerar novos desequilíbrios. INDÚSTRIA DESEMPENHO NEGATIVO EXPÕE AJUSTE DA INDÚSTRIA E TOMBO DE MAIS DE 20% EM SANTA CATARINA PRESSIONADO PELO FATOR EXPORTAÇÃO

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24 moveisdevalor.com.br com produção por hora cerca de quatro vezes inferior a dos Estados Unidos. Fatores como infraestrutura deficiente, burocracia e qualificação da mão de obra ajudam a explicar o desempenho. Nesse contexto, uma eventual redução de jornada tende a pressionar custos, preços e empregos, especialmente em setores intensivos em mão de obra. Simulações indicam que a necessidade de novas contratações pode reduzir margens e gerar repasses ao consumidor. Redução da jornada eleva impactos para o setor O debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1 ganhou força recente, mas envolve, sobretudo, questões econômicas. A principal preocupação é o aumento do custo por hora trabalhada caso haja redução de jornada sem ajuste proporcional de salários — cenário diretamente ligado ao nível de produtividade. Hoje, o Brasil apresenta baixa produtividade: ocupa a 94ª posição no ranking global da Organização Internacional do Trabalho, ECONOMIA EM ANO ELEITORAL, A PROPOSTA GANHA FORÇA POLÍTICA, MAS DESAFIA A SUSTENTABILIDADE FINANCEIRA DE SETORES INTENSIVOS EM MÃO DE OBRA E COM BAIXA RENTABILIDADE COM PRODUTIVIDADE ESTAGNADA, IMPOR JORNADA MENOR REDISTRIBUI CUSTOS SEM GERAR EFICIÊNCIA E PODE ACELERAR REPASSES DE PREÇOS AO CONSUMIDOR FINAL Por Guilherme Arruda, jornalista convidado e analista sênior

25 moveisdevalor.com.br Estudos reforçam esse cenário. Levantamento da FGV aponta que ganhos de produtividade seriam condição necessária para sustentar a mudança. Já análises da Confederação Nacional do Comércio indicam aumento relevante na folha de pagamento em caso de adoção ampla do novo modelo. Embora haja apoio social à medida, o principal ponto de atenção está na implementação. Em economias desenvolvidas, jornadas menores foram adotadas após ganhos consistentes de eficiência e ampla negociação coletiva — uma trajetória ainda distante da realidade brasileira. Hoje, diferentes propostas tramitam no Congresso, com modelos que variam entre mudanças constitucionais e ajustes via legislação trabalhista. Em paralelo, surgem alternativas como desoneração da folha para mitigar impactos. O consenso entre especialistas é que a discussão precisa avançar junto a uma agenda de produtividade. Sem esse alinhamento, a redução da jornada tende a redistribuir custos — e não necessariamente gerar ganhos econômicos sustentáveis. BRASIL JÁ TEM JORNADAS ABAIXO DE 44 HORAS O BRASIL E A BAIXA PRODUTIVIDADE Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que o Brasil ocupa a 94ª posição em produtividade no ranking global. O indicador relaciona produção econômica às horas trabalhadas e é chave para medir competitividade. Segundo o levantamento, os brasileiros trabalham, em média, 38,9 horas por semana – menos do que em 97 países. Em economias como China, Índia e México, jornadas mais longas ajudam a alimentar o debate sobre produtividade e modelos de trabalho. IRINEU MUNHOZ PROPÕE TRANSIÇÃO EM ETAPAS O presidente da Abimóvel, Irineu Munhoz, defende que a redução da jornada seja feita de forma gradual e alinhada à realidade do setor. Segundo ele, mudanças precisam ser tratadas como política produtiva, evitando aumento de custos e impactos na formalização. A proposta considera desafios como tributação das pequenas empresas, operação industrial contínua e produtividade – que caiu 8,4% em 2025 – e sugere uma transição de cinco a quinze anos, com negociação coletiva como base. Estudo do Ministério do Trabalho mostra que cerca de dois terços dos vínculos formais no país (29,7 milhões) já operam no modelo 5x2, com jornadas inferiores às 44 horas semanais previstas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A redução é viabilizada por acordos e convenções coletivas, prática adotada há décadas em diversos setores. Em tecnologia da informação e entre eletricitários, por exemplo, jornadas de 40 horas – e até 30 horas em funções específicas – já são realidade. Em atividades de atendimento ao cliente, a carga costuma ser de 36 horas semanais, distribuídas conforme escala negociada.

26 moveisdevalor.com.br sucessivos choques – pandemia, guerra, tensões comerciais –, a globalização segue praticamente intacta. O MUNDO PAROU, MAS NÃO MUDOU Durante a pandemia, o colapso logístico global expôs uma dependência extrema de cadeias longas e complexas. Portos congestionados, falta de contêineres e atrasos generalizados mostraram como um problema localizado pode gerar efeitos em cascata. Logística em crise expõe limites da globalização A guerra no Oriente Médio reacendeu um problema que o mundo já havia experimentado recentemente: a fragilidade das cadeias globais de suprimentos. Rotas marítimas comprometidas, custos logísticos disparando e mercadorias “presas” em diferentes partes do planeta voltaram a compor o cenário – agora com um agravante geopolítico ainda mais sensível. Mas o ponto mais intrigante não é a crise em si. É o fato de que, mesmo diante de ECONOMIA MESMO COM CHOQUES SUCESSIVOS NAS CADEIAS GLOBAIS, O MUNDO SEGUE INTEGRADO, E ISSO PODE COBRAR UM PREÇO ALTO DA ECONOMIA A CRISE ESTÁ TORNANDO O JOGO MAIS COMPLEXO E QUEM CONTINUAR OPERANDO APENAS COM FOCO EM CUSTO TENDE A PERDER ESPAÇO A NOVA VANTAGEM COMPETITIVA SERÁ A CAPACIDADE DE EQUILIBRAR EFICIÊNCIA, RESILIÊNCIA E VELOCIDADE DE RESPOSTA Por Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor

27 moveisdevalor.com.br Agora, com a guerra afetando rotas estratégicas e elevando o custo de transporte em até cinco vezes em alguns casos, o mesmo padrão se repete. Não se trata apenas de petróleo. Insumos industriais, alimentos e matérias-primas passam a enfrentar gargalos simultâneos, ampliando a pressão sobre preços em escala global. Ainda assim, ao contrário do que muitos analistas previram nos últimos anos, não houve uma ruptura estrutural. POR QUE NINGUÉM FALA EM DESGLOBALIZAÇÃO? A resposta é menos ideológica e mais econômica. A globalização não é sustentada apenas por estratégia – ela é, sobretudo, uma questão de custo. Produzir onde é mais barato continua sendo, para a maioria das empresas, mais vantajoso do que relocalizar operações. Mesmo iniciativas de “nearshoring” e regionalização, que ganharam força após a pandemia, mostram sinais de perda de fôlego. Na prática, empresas voltaram a buscar fornecedores globais mais competitivos, ainda que mais distantes. Ou seja, há discurso de resiliência, mas a lógica da eficiência ainda prevalece. O RISCO SILENCIOSO DA ESTAGFLAÇÃO Esse é o ponto que começa a preocupar economistas – e que ainda aparece pouco no debate público. Quando crises logísticas se combinam com choques de energia, o resultado tende a ser uma equação perigosa com custos de produção O Brasil é altamente dependente de insumos importados, fertilizantes, combustíveis e componentes industriais "Mesmo diante de sucessivos choques, pouco se fala em desglobalização."

28 moveisdevalor.com.br mais altos, transporte mais caro, consumo pressionado e crescimento mais lento. Esse cenário caracteriza a chamada estagflação – um fenômeno raro, mas historicamente associado a crises profundas, como nos anos 1970. Hoje, os sinais já estão presentes: energia mais cara encarece toda a cadeia produtiva, reduz o poder de compra das famílias e limita a expansão econômica. E O BRASIL NISSO TUDO? Embora distante dos conflitos, o Brasil não está isolado desse movimento. Pelo contrário – a economia brasileira é altamente dependente de insumos importados, fertilizantes, combustíveis e componentes industriais. Qualquer ruptura logística global impacta diretamente custos internos, inflação e competitividade. Além disso, o país enfrenta um desafio adicional, principalmente porque depende de exportações de commodities e importa grande parte dos insumos industriais. Isso cria uma vulnerabilidade dupla em cenários de disrupção global. UM SISTEMA QUE INSISTE EM NÃO MUDAR O que a crise atual revela não é o fim da globalização – mas sim sua resiliência, mesmo diante de riscos crescentes. As cadeias globais continuam operando, se expandindo e, paradoxalmente, se tornando mais expostas a choques. A pergunta que fica não é se haverá desglobalização. Mas sim até que ponto o sistema atual consegue absorver novas crises sem provocar efeitos mais severos na economia mundial. E, sobretudo, quanto tempo ainda levará para que eficiência deixe de ser o único critério – e dê espaço a um modelo que equilibre custo, segurança e previsibilidade. CADEIA GLOBAL SOB PRESSÃO: O QUE MUDA NA PRÁTICA A nova onda de disrupções logísticas não é pontual — ela revela um ambiente estruturalmente mais instável. Para indústria e varejo, o impacto deixa de ser apenas operacional e passa a ser estratégico. 1. Estoque volta ao centro da estratégia O modelo “estoque mínimo” perde espaço. Empresas mais preparadas já trabalham com níveis de segurança maiores, especialmente para insumos críticos. 2. Custo logístico deixa de ser variável secundária Frete, energia e prazos passam a influenciar diretamente margens e formação de preço. Ignorar isso pode comprometer competitividade. 3. Diversificação de fornecedores é prioridade Dependência de uma única origem, especialmente internacional, aumenta o risco. O movimento agora é combinar fornecedores globais e regionais. 4. Regionalização ganha espaço, mas com limites Trazer produção para mais perto do mercado consumidor reduz riscos, mas nem sempre é viável economicamente. O equilíbrio entre custo e segurança será decisivo. 5. Pressão inflacionária exige mais inteligência comercial Com custos mais altos, repasses precisam ser estratégicos. Comunicação de valor e posicionamento passam a ser tão importantes quanto preço. 6. Planejamento substitui reação Empresas que ainda operam no improviso tendem a sofrer mais. Cenários, previsibilidade e gestão de risco entram definitivamente na agenda. ECONOMIA

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30 moveisdevalor.com.br Durante décadas, a sucessão nas empresas familiares foi tratada como algo natural. O fundador constrói, o filho assume, e o negócio segue. Simples assim. Ou, pelo menos, era o que se imaginava. Na prática, não é. O setor moveleiro, altamente pulverizado e formado majoritariamente por empresas familiares, vive hoje um dos seus momentos mais delicados: a transição entre gerações. E o problema não está na falta de sucessores. Está na forma como eles são preparados - ou, na maioria dos casos, não são. A experiência recente do varejo norte-americano mostra que assumir um negócio familiar é muito mais do que herdar um cargo. Envolve pressão, responsabilidade, conflitos e, principalmente, a necessidade de provar valor todos os dias. No Brasil, porém, ainda prevalece uma visão equivocada: a de que sucessão é um direito automático. HERANÇA NÃO FORMA LÍDERES Um dos erros mais comuns nas empresas brasileiras é confundir continuidade familiar com competência de gestão. Enquanto mercados mais maduros estimulam que a nova geração adquira experiência fora do negócio antes de assumir posições estratégicas, por aqui muitos sucessores entram direto no comando, sem vivência, sem repertório e, muitas vezes, sem legitimidade interna. O resultado é Sucessão não é herança GESTÃO POR QUE A PRÓXIMA GERAÇÃO FALHA, O QUE O BRASIL FAZ DIFERENTE (E PIOR) E COMO PREPARAR LÍDERES DE VERDADE NO SETOR? RESUMINDO: O MAIOR RISCO PARA UMA EMPRESA FAMILIAR NÃO É O MERCADO, NEM A CONCORRÊNCIA – É A SUCESSÃO MALCONDUZIDA Por Ari Bruno Lorandi CEO Móveis de Valor

31 moveisdevalor.com.br previsível: equipes desconectadas, decisões frágeis e uma liderança que nasce questionada. Não à toa, a chamada “síndrome do impostor” é recorrente entre sucessores. Mas, no Brasil, ela muitas vezes convive com o oposto, uma falsa segurança baseada apenas no sobrenome. Mas nenhum dos dois sustenta uma empresa. CREDIBILIDADE NÃO VEM DO CARGO Se há um ponto claro nas experiências internacionais, é que liderança não se impõe, se constrói. Ela nasce no dia a dia, no contato com a operação, no respeito conquistado junto às equipes. Vem de quem conhece o chão de fábrica, ou da loja, entende o cliente, participa da entrega e assume responsabilidades reais. Mas esse ainda não é o padrão no Brasil. Aqui, não é raro ver sucessores começando “por cima”, ocupando posições estratégicas sem passar pelas etapas fundamentais do negócio. O efeito colateral é imediato: distanciamento da operação, resistência interna e dificuldade em liderar mudanças. No fim, o cargo existe. A liderança, não. O CONFLITO SILENCIOSO ENTRE GERAÇÕES Outro ponto crítico, e pouco discutido, é o choque entre fundadores e sucessores. De um lado, líderes que construíram seus negócios com base em controle, experiência prática e decisões centralizadas. De outro, uma nova geração que chega com outra visão, mais aberta à tecnologia, à inovação e à profissionalização. O problema é que, em muitos casos, esse conflito não é tratado. Ele é evitado. Faltam estruturas, faltam conversas claras e, principalmente, falta a definição de papéis. Quem decide? Quem executa? Quem responde pelo quê? Sem isso, a empresa trava. GOVERNANÇA É O ELO MAIS FRÁGIL Enquanto mercados mais estruturados avançam na criação de conselhos independentes e na separação entre família, propriedade e gestão, o Brasil ainda engatinha nesse tema. E isso cobra um preço alto. 7 PONTOS CRÍTICOS QUE DEFINEM O FUTURO DA EMPRESA 1. O mito da sucessão natural A ideia de que o herdeiro está automaticamente pronto ainda predomina - e é um dos maiores erros. 2. Herança não é liderança Assumir o negócio não significa estar preparado para liderar. Competência precisa ser construída. 3. Choque entre gerações Diferenças de visão, ritmo e estilo de gestão travam decisões e atrasam a evolução. 4. Credibilidade se conquista Respeito não vem do sobrenome, vem da prática, da entrega e da convivência com a equipe. 5. Falta de governança Misturar família, gestão e propriedade compromete decisões e aumenta conflitos. 6. Tradição sem atualização vira problema Preservar valores é essencial, mas sem adaptação, o negócio perde relevância. 7. Sucessores não são preparados Sem formação estruturada, a transição vira improviso e o risco aumenta.

32 moveisdevalor.com.br Sem governança, decisões estratégicas se confundem com interesses familiares. Conflitos ganham peso emocional. E o longo prazo perde espaço para acordos de conveniência. A presença de conselhos externos, como destacado nas boas práticas internacionais, não apenas melhora o desempenho das empresas, como cria um ambiente mais transparente e profissional para a tomada de decisão. No setor moveleiro, essa ainda é uma exceção. ENTRE TRADIÇÃO E INOVAÇÃO Empresas familiares carregam um ativo poderoso: sua história. Mas o que construiu o passado nem sempre sustenta o futuro. O grande desafio está em separar o que é essência do que é hábito. Manter valores como qualidade, relacionamento e reputação sim, mas atualizar constantemente a forma como esses valores chegam ao mercado. Negócios que não fazem essa distinção acabam presos à própria trajetória. E, em um mercado cada vez mais competitivo e dinâmico, isso significa perder relevância. O MAIOR ERRO É NÃO PREPARAR QUEM VEM DEPOIS Talvez o ponto mais crítico de todos seja este, sucessores não são formados na hora da transição. Eles são preparados ao longo do tempo. Exposição ao negócio desde cedo, desenvolvimento de competências, vivência fora da empresa, mentoria, acompanhamento... tudo isso faz parte de um processo estruturado de sucessão. Mas, no Brasil, esse processo raramente existe. A sucessão ainda acontece no improviso. E improviso, nesse contexto, custa caro. E existe um risco invisível que ameaça o setor. O empresário costuma olhar para fora quando pensa em risco, ou seja, concorrência, importações, custo, crédito, consumo. Mas existe um risco muito mais silencioso e, muitas vezes, mais perigoso. A sucessão mal conduzida. Empresas sólidas, com marca, história e mercado, podem perder força rapidamente quando a transição não é bem feita. Não por ✖ Achar que o sobrenome é suficiente Nome abre portas. Competência é o que mantém o negócio de pé. ✖ Evitar conversas difíceis Conflitos ignorados viram problemas maiores e travam decisões estratégicas. ✖ Manter o fundador no controle absoluto Sem transição real, o sucessor nunca se forma e a empresa não evolui. ✖ Promover sem preparo Colocar alguém no comando sem experiência fragiliza a operação e a equipe. ✖Confundir tradição com resistência à mudança Preservar valores é diferente de impedir a inovação. ✖ Misturar família com gestão sem regras claras Sem papéis definidos, surgem conflitos, ruídos e decisões inconsistentes. ✖ Ignorar governança Sem estrutura, tudo vira pessoal e o negócio perde profissionalismo. ✖ Não planejar a sucessão com antecedência Quando a transição chega sem preparo, o risco deixa de ser teórico e vira real. OS ERROS FATAIS DA SUCESSÃO QUE DESTROEM VALOR GESTÃO

33 moveisdevalor.com.br falta de produto, nem por falta de demanda, mas por falta de liderança. MAIS DO QUE CONTINUAR, É PRECISO EVOLUIR No fim, a pergunta que fica não é “quem vai assumir?”. É quem está realmente preparado para liderar o próximo ciclo? Porque continuidade, por si só, não garante nada. O mercado mudou. O consumidor mudou. A dinâmica competitiva mudou. E as empresas que não evoluírem junto, independentemente de quem esteja no comando, vão, inevitavelmente, perder espaço. Sucessão não é sobre manter o negócio vivo. É sobre garantir que ele continue relevante.

34 moveisdevalor.com.br A força de uma feira em São Paulo De 16 a 19 de março a Yes Móvel Show São Paulo reuniu, segundo a organizadora, cerca de 24 mil pessoas no Distrito Anhembi. Em sua quinta edição, o evento contou com mais de 250 marcas de móveis, eletros e colchões, além de expositores que prestam serviços ao setor moveleiro e de compradores internacionais. Segundo a organização, essa quinta edição da Yes Móvel Show São Paulo bateu recorde de visitação, registrando um aumento de 20% em relação a anterior. Organizada por setores, sinalizados por cores, a orientação ficou melhor para os visitantes. Outra novidade foi a criação de um horário alternativo para o primeiro e último dia, justificado pela intenção de atender as necessidades do perfil do público visitante. “A maioria dos lojistas vem de regiões mais distantes da Grande São Paulo, envolve viagem, hospedagem e logística. O resultado dessa alteração foi muito positivo. Os lojistas tiveram melhor aproveitamento do tempo, conseguiram visitar mais expositores, e saíram com uma experiência mais satisfatória”, acredita Erisson Matos, CEO da Yes. YES MÓVEL SHOW SÃO PAULO REAFIRMA SUA LIDERANÇA AO REUNIR 24 MIL VISITANTES E MAIS DE 250 MARCAS, CONSOLIDANDO-SE COMO A MAIOR FEIRA DO SETOR NA AMÉRICA LATINA COM CRESCIMENTO DE PÚBLICO, MELHORIAS NA ORGANIZAÇÃO E FORTE PRESENÇA INTERNACIONAL, O EVENTO IMPULSIONOU NEGÓCIOS E DESTACOU TENDÊNCIAS EM MÓVEIS E COLCHÕES FEIRAS E EVENTOS Por Natalia Concentino, jornalista Os irmãos Fabrício e Erisson Matos, organizadores da Yes Móvel Show

35 moveisdevalor.com.br Mas, existem pontos que causaram incômodo aos visitantes e expositores, sendo o principal deles – novamente – a falta de segurança. Durante os quatro dias de evento houve relatos de furtos de celulares, notebooks e mochilas no interior do pavilhão de exposições, pessoas circulando sem credencial, obrigando a organização a postar no Instagram um pedido para que as pessoas cuidassem de seus pertences. Diante disso, perguntamos a Yes quais medidas serão adotadas na próxima edição, mas não recebemos resposta. FEIRA EMPOLGA LOJISTAS Diante de tantos lançamentos e opções de produtos, muitos lojistas se mostraram empolgados e com disposição para fechar negócio, na própria feira ou depois. Claudenir Moraes, do Grupo Lojista American Night Perfect (SP), é um deles. Interessado em colchões, cabeceiras e camas. “Atuamos com lojas de colchões exclusivas e viemos conferir as novidades da Probel, uma de nossas parceiras. Também nos encantamos com os lançamentos em camas e cabeceiras de marcas como Bonan e Perfan, que apresentaram modelos com tecidos renovados, muito uso do courino e boucle”, comenta. Direto da Colômbia, o lojista Mauricio Valencia, que atua com e-commerce, conta que o design brasileiro chama bastante atenção e faz sucesso em seu país. “Gostei muito do que vi aqui. Vale a pena fazer compras no Brasil, já venho para cá fazer negócios há 10 anos”, conta. Mateus Leite, gerente de marketplace da Panorama Móveis (SC), elogiou os móveis e o conClaudenir Moraes, do Grupo Lojista American Night Perfect teúdo das palestras na Arena Yes. “Vendemos produtos de tamanhos maiores, como guarda-roupas, e estamos investindo em móveis com mais valor agregado, e que gerem menos assistência. Nessa linha encontrei muitos guarda-roupas 100% em MDF, com vidro reflecta, detalhes ripados e LED”, relata. Com forte presença online e 15 lojas físicas, a Esplanada Móveis, do estado de São Paulo, também mandou colaboradores para conferir as novidades da Yes Móvel Show. “Tudo o que a gente precisa encontramos, parceiros e novos fornecedores também. Neste ano, viemos em busca de colchões, conhecer as novidades em design e tecidos”, resume Ricardo Taveira. Lucas Rojo também estava em busca de colchões. Proprietário do Lucas Home (SP), um e-commerce especializado nesse segmento, Lucas informou que começou com uma loja física e hoje tem como objetivo se tornar o maior canal de vendas de colchão pela internet do Brasil. Por isso visitou a feira com o intuito de abastecer os estoques, principalmente por conta da busca por expansão e investimento no Nordeste. De Minas Gerais, Pedro Cabral, da Móveis Cambuí, chegou em busca de novos fornecedores. “Já temos alguns parceiros expondo na feira, mas Mauricio Valencia, lojista colombiano de e-commerce Ricardo Taveira, da Esplanada Móveis Mateus Leite, gerente de marketplace da Panorama Móveis Lucas Rojo, proprietário do e-commerce Lucas Home

36 moveisdevalor.com.br sempre buscamos novos quando frequento eventos. Primeiro dou uma olhada, converso e depois entro em contato para fechar negócio. Vim em busca de painéis, roupeiros, móveis com detalhes ripados e LED”, conta. Também de Minas Gerais, Geraldo Majella e a esposa Bruna Janaína compareceram à feira com o objetivo de abastecer os estoques. Eles fazem parte da Lojas Mobile, de Belo Horizonte. “Estamos sempre de olho nas tendências e em novos parceiros, por isso frequentamos várias feiras, mas essa de São Paulo virou referência, então não podemos faltar”, avalia Geraldo. A Yes Móvel Show atraiu lojistas também do Norte do Brasil, como é o caso da Center Kennedy, do Amapá. “Nos surpreendeu positivamente pelo número de expositores, organização por segmentos e o formato dos estandes. Assim conseguimos ter uma ideia sobre as principais tendências de design e cores, com destaque para os kits de cozinha e os guarda-roupas com vidro reflecta e uso de LED”, destaca Diego Xavier, diretor da empresa. Flavio Daniel, da Tradição Móveis (PE), também aprovou a divisão da feira por setores. “Eu gosto de vir comprar e fazer networking caminhando pela feira. Também com ideia de montar showroom de loja. Acredito que as feiras formam um conjunto de preço, aprendizado e relacionamento”. O lojista, conhecido no setor por ter se destacado nas redes sociais, também realizou uma palestra na Arena Yes e levou sua agência Eco Digital para expor no evento. FEIRA PAULISTA ATRAI DESIGNERS E ARQUITETOS O designer de interiores Marco Antonio Roque, esteve na Yes São Paulo para acompanhar as novidades. “Percebi essa feira com quase 50% ocupada por empresas de colchões, um segmento fantástico, mas precisa olhar mais para os lados e enxergar novas oportunidades de mercado, porque aqui os produtos estão muito parecidos entre si”, alerta. Para o arquiteto Jefferson Ferreira, foi uma experiência interessante visitar pela primeira vez uma feira desse porte, uma vez que nem sempre é preciso usar móveis planejados nos projetos. “É bom conhecer os materiais que estão sendo usados, as dimensões e os detalhes técnicos, tanto dos móveis como dos colchões, para que eu possa indicar nos meus projetos”, ressalta. YES, ABIMÓVEL E APEX REÚNEM COMPRADORES INTERNACIONAIS A presença de compradores internacionais foi um dos destaques desta Yes Móvel Show São Paulo. De acordo com a organização, foram 123 compradores internacionais, um aumento Geraldo Majella e Bruna Janaína, da Lojas Mobile Diego Xavier, da Center Kennedy Flavio Daniel, da Tradição Móveis Marco Antonio Roque, designer de interiores Pedro Cabral, da loja mineira Móveis Cambuí Jefferson Ferreira, arquiteto FEIRAS E EVENTOS

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