6 moveisdevalor.com.br Por Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor Eu estava na primeira Movelsul, em 1977. Naquela época, uma feira de móveis tinha uma função muito clara: colocar fabricantes diante dos lojistas. Muitas indústrias gaúchas não tinham condições de participar da Fenavem, em São Paulo. Então Bento Gonçalves criou sua própria vitrine. A indústria levava seus lançamentos, o lojista visitava os estandes, fazia pedidos e voltava para casa. Funcionava. E funcionava tão bem que o Brasil inteiro passou a repetir a fórmula. Vieram outras feiras, outros polos, outros pavilhões. Mas, no fundo, quase todas faziam a mesma coisa: fabricante de um lado, lojista do outro e o pedido no meio. Mas o mundo mudou. E as feiras, nem tanto. Hoje, uma indústria não espera mais a feira do ano seguinte para lançar um produto. O lojista recebe novidade pelo celular. Faz reunião por vídeo. Negocia todos os dias. Visita fábrica. Compra por plataforma. A informação circula numa velocidade que simplesmente não existia quando esse modelo foi criado. Então eu faço uma pergunta que talvez incomode: ainda faz sentido gastar milhões para reunir, durante quatro dias, pessoas que já negociam entre si durante os outros 361? A Movelsul deste ano deixou essa pergunta ainda mais evidente. O número de visitantes foi menor. Muitos lojistas que tradicionalmente poderiam estar em Bento Gonçalves preferiram ir para Foz do Iguaçu, onde acontecia a VEX26. E por quê? Porque lá o produto não era necessariamente o protagonista. Conteúdo, gestão, comportamento do consumidor, tecnologia, futuro do varejo. Os produtos estavam presentes, claro. Os negócios também. Mas como consequência do encontro. TALVEZ O PROBLEMA NÃO SEJAM AS FEIRAS. É O MODELO QUE PRECISA MUDAR Não precisa acabar com as feiras. Mas mudar a razão pela qual as pessoas se propõem a ir até elas. O projeto Conecta foi uma das iniciativas mais interessantes desta edição, justamente porque trouxe para perto da indústria pessoas que normalmente não estão no centro das feiras moveleiras. Arquitetos, designers de interiores, hoteleiros, especificadores, construtoras. Da mesma forma, os projetos de internacionalização trouxeram importadores para conhecer o que a indústria brasileira tem a oferecer. Isso é feira fazendo algo que dificilmente aconteceria numa simples visita comercial. Durante décadas, a indústria moveleira organizou praticamente todo o seu calendário olhando para o lojista. Só que existe alguém muito importante quase sempre do lado de fora desse jogo: o consumidor. É ele quem escolhe onde morar, É ele quem pesquisa design, sustentabilidade, conforto, funcionalidade e preço. E quem, no final das contas, paga por tudo. E, curiosamente, é justamente quem a indústria menos conhece diretamente. Com certeza, a feira do futuro deve ter menos metros quadrados de estandes monumentais. Menos investimento em estruturas que desaparecem quatro dias depois. E mais conteúdo. Mais consumidor. Mais mercado corporativo. Mais conexão internacional. Porque expor móveis simplesmente para encontrar lojistas que já conhecem aqueles fabricantes está ficando caro demais. Não significa que as feiras perderam importância. Elas precisam encontrar uma nova importância para entao se tornarem imprescindíveis. Depois de quase 50 anos fazendo a mesma feira, chegou a hora de parar de perguntar quantos lojistas conseguimos levar ao pavilhão. E começar a perguntar: quantos mercados novos conseguimos levar até a indústria?
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