6 moveisdevalor.com.br Por Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor Durante muitos anos, quando a indústria moveleira brasileira falava em China, quase sempre era para falar de ameaça. Preço baixo. Escala gigantesca. Mão de obra escrava. Concorrência difícil de enfrentar. Pois talvez esteja na hora de mudar um pouco essa conversa. Não porque a China tenha deixado de ser concorrente. Muito pelo contrário. Continua sendo uma potência industrial e exportadora que nenhum fabricante brasileiro pode ignorar. Mas aconteceu uma coisa curiosa. A China que assustava nossos empresários agora também desperta curiosidade. Centenas de empresários do setor moveleiro brasileiro estão viajando para lá, visitando feiras, fábricas e fornecedores, observando tecnologia, automação, novos materiais, design, logística e tentando entender como os chineses conseguem produzir com tanta velocidade e escala. E alguns estão indo além: querem comprar produtos chineses para vender no Brasil. Olha como o jogo mudou. Só que a China também está mudando. Uma análise recente do professor Hongbin Li, da Universidade de Stanford, mostra que o país está tentando fazer uma transição difícil: sair de uma economia extremamente dependente de investimentos e caminhar para um modelo no qual o consumo interno tenha importância maior. Ao mesmo tempo, as exportações chinesas continuam muito fortes. E, quando Estados Unidos e outros mercados colocam barreiras aos produtos chineses, eles não simplesmente desaparecem. Eles procuram outros destinos. A CHINA AINDA É UMA AMEAÇA. MAS AGORA VIROU ESCOLA PARA OS MOVELEIROS O professor usa uma comparação muito interessante: é como colocar uma barragem no caminho da água. Ela simplesmente procura outro lugar para passar. E nós precisamos perguntar: será que parte dessa água vai desembocar aqui? Porque o Brasil está se aproximando cada vez mais da China. E o próprio professor vê uma tendência de empresas chinesas vindo para cá não apenas para vender, mas para investir e produzir. Isso muda completamente a discussão. A China pode ser nossa fornecedora. Pode ser parceira. Pode trazer capital, tecnologia e conhecimento. Pode até participar de joint ventures com empresas brasileiras – caminho que o próprio Hongbin Li aponta como oportunidade para o Brasil subir na cadeia de valor. Mas continuará sendo nossa concorrente. E é justamente aí que está o desafio para a indústria de móveis. Ir à China para aprender é ótimo. Comprar tecnologia chinesa pode ser ótimo. Fazer negócios com os chineses também. Mas existe uma enorme diferença entre usar a China para tornar a indústria brasileira mais competitiva e usar a China para substituir a indústria brasileira. Não precisamos mais olhar para a China apenas com medo. Mas também seria um erro começar a olhar para ela com ingenuidade. Cá entre nós... A questão não é mais se devemos nos aproximar da China. Já estamos fazendo isso. A questão é: o que a indústria brasileira vai trazer de volta dessa aproximação? Tecnologia e conhecimento? Ou móveis prontos? Essa diferença pode decidir muito do futuro da nossa indústria.
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