Móveis de Valor - Edição 260

ANO 25 • EDIÇÃO 260 • SETEMBRO DE 2026 CONECTANDO IDEIAS, NEGÓCIOS E O FUTURO DO SETOR Móvel infantil deve ser multifuncional Para IA escolher sua empresa, ela precisa conhecê-la antes Que experiência o consumidor busca ao comprar móveis? China altera o jogo na indústria global de móveis @moveisdevalor

4 moveisdevalor.com.br Por Inalva Corsi, editora E stá chegando às suas mãos uma edição com 116 páginas que traduz, em diferentes ângulos e geografias, a amplitude de um setor que não para de se transformar. Para fazer este raio X do mercado de móveis e colchões, fomos além das fronteiras. Na China, maior produtora, exportadora e consumidora de móveis do mundo, encontramos uma indústria que começa a deixar para trás a expansão baseada apenas em volume para avançar em design, tecnologia, personalização e valor. Um movimento que traz lições importantes para o Brasil. Na Turquia, acompanhamos a quinta edição da IBIA Expo, que consolida o país como plataforma internacional para a indústria de colchões e inaugura uma nova etapa, agora bienal. Já na Feiplar & Feipur, em São Paulo, buscamos respostas para desafios relacionados aos componentes químicos e aos caminhos para combinar desempenho, produtividade e inovação. O varejo também ocupa espaço importante. O Ranking IRTT revela a força das grandes redes e dos grupos regionais em um mercado pressionado pelos juros. Chama atenção a trajetória da Lojas CEM, que amplia sua presença física enquanto outras grandes redes reduzem lojas. A transformação chega ainda à legislação. A reforma tributária exige atenção das empresas, especialmente com o split payment, que começa a alterar a dinâmica de recolhimento dos novos tributos e terá impacto sobre o fluxo de caixa. No design, os desafios também mudam. O consumidor precisa de móveis que ajudem a organizar melhor a vida, a reparabilidade ganha espaço e as novas formas de trabalho aproximam os universos residencial e corporativo. Os móveis infantis, tema de capa desta edição, enfrentam redução da taxa de nascimentos, juros elevados e maior cautela do consumidor. Ao mesmo tempo, cresce o espaço para produtos mais duráveis, flexíveis e capazes de acompanhar diferentes fases da infância. E fomos ouvir quem está do outro lado do balcão. A pesquisa da Móveis de Valor investiga como o consumidor está comprando, o que espera das lojas, o peso do vendedor e quais serviços podem influenciar sua decisão. Há ainda uma nova fronteira: a inteligência artificial. Antes de ser escolhida pela IA, sua empresa precisa existir para ela. As novas formas de busca já começam a alterar a maneira como marcas são encontradas e valorizam, mais do que nunca, informação relevante e bem estruturada na internet. São diferentes mercados e olhares, mas todos apontam na mesma direção: o setor de móveis e colchões entra em uma fase em que entender as mudanças será tão importante quanto produzir, vender ou inovar. Para ajudar nossos leitores a enxergar essas mudanças antes que elas se tornem realidade no dia a dia dos negócios é que fazemos jornalismo. Boa leitura! REDAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO Rua Dep. Estefano Mikilita, 125 - 3º andar CEP 81070-430 - Portão Curitiba – PR – Brasil CONTATO Fone (41) 99912-9877 www.moveisdevalor.com.br moveisdevalor@moveisdevalor.com.br DIRETORES Ari Bruno Lorandi aribruno@moveisdevalor.com.br Inalva Corsi inalvacorsi@moveisdevalor.com.br ADMINISTRAÇÃO/FINANÇAS Juliana Pinheiro financeiro@moveisdevalor.com.br REDAÇÃO Inalva Corsi – 3035 PR Jornalista Responsável inalvacorsi@moveisdevalor.com.br Natalia Concentino – 10431 PR natalia@moveisdevalor.com.br João Caetano Guimarães caetano@moveisdevalor.com.br Guilherme Arruda – 5955 RS Jornalista convidado guilherme@moveisdevalor.com.br DIREÇÃO DE ARTE E DIAGRAMAÇÃO Bruna Rosário arte@moveisdevalor.com.br ASSINATURAS E CIRCULAÇÃO assina@moveisdevalor.com.br COMERCIAL – SUL Inalva Corsi - (41) 99912-9877 | 99991-2974 inalvacorsi@moveisdevalor.com.br COMERCIAL – SUDESTE Cidinha Leal - (17) 98114-3666 cidinha@moveisdevalor.com.br CARTA DA EDITORA @moveisdevalor Acesse a versão digital desta edição

5 moveisdevalor.com.br SUMÁRIO NOSSA CAPA Ilustra capa desta edição Linha Cocada, da Permóbili Baby, de Linhares (ES) (27) 3373-7950 www.permobilibaby.com.br 56 TENDÊNCIAS A "bagunça da casa” traz recado para a indústria de móveis 60 ESPECIAL Móvel infantil enfrenta economia fraca e baixa taxa de natalidade SEÇÕES 6 CÁ ENTRE NÓS A China ainda é uma ameaça, mas virou escola para o Brasil 8 PONTO DE VENDA Consumidor já mistura loja física e internet na compra 30 VAREJO Que experiência o consumidor busca ao comprar móveis? 10 ECONOMIA Empresa deve organizar o caixa antes da virada fiscal 14 ECONOMIA China altera o jogo na indústria global de móveis 22 VAREJO Varejo de móveis gera bilhões, mas cresce sob pressão 26 VAREJO Lojas CEM cresce na contramão e desafia lógica do digital 40 E-COMMERCE Para ser escolhida pela IA, sua loja precisa existir para ela 52 TENDÊNCIAS Home office eleva exigência de conforto e design resimercial 72 DESTAQUE DE CAPA Permóbili Baby propõe ambientes para acolher e estimular 76 FEIRAS E EVENTOS Feiplar & Feipur mostra caminhos para a indústria de colchões 80 BED REPORT IBIA Expo, da Turquia, encerra um ciclo e passa a ser bienal 104 ARTIGO Nenhuma marca se perpetua sozinha, garante Eliane Vignatti 106 DESIGN Durabilidade e atemporalidade marcam peças de Linda Martins 114 NOTAS INDÚSTRIA Mercado nacional e exportações não sustentam aumento da produção

6 moveisdevalor.com.br Por Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor Durante muitos anos, quando a indústria moveleira brasileira falava em China, quase sempre era para falar de ameaça. Preço baixo. Escala gigantesca. Mão de obra escrava. Concorrência difícil de enfrentar. Pois talvez esteja na hora de mudar um pouco essa conversa. Não porque a China tenha deixado de ser concorrente. Muito pelo contrário. Continua sendo uma potência industrial e exportadora que nenhum fabricante brasileiro pode ignorar. Mas aconteceu uma coisa curiosa. A China que assustava nossos empresários agora também desperta curiosidade. Centenas de empresários do setor moveleiro brasileiro estão viajando para lá, visitando feiras, fábricas e fornecedores, observando tecnologia, automação, novos materiais, design, logística e tentando entender como os chineses conseguem produzir com tanta velocidade e escala. E alguns estão indo além: querem comprar produtos chineses para vender no Brasil. Olha como o jogo mudou. Só que a China também está mudando. Uma análise recente do professor Hongbin Li, da Universidade de Stanford, mostra que o país está tentando fazer uma transição difícil: sair de uma economia extremamente dependente de investimentos e caminhar para um modelo no qual o consumo interno tenha importância maior. Ao mesmo tempo, as exportações chinesas continuam muito fortes. E, quando Estados Unidos e outros mercados colocam barreiras aos produtos chineses, eles não simplesmente desaparecem. Eles procuram outros destinos. A CHINA AINDA É UMA AMEAÇA. MAS AGORA VIROU ESCOLA PARA OS MOVELEIROS O professor usa uma comparação muito interessante: é como colocar uma barragem no caminho da água. Ela simplesmente procura outro lugar para passar. E nós precisamos perguntar: será que parte dessa água vai desembocar aqui? Porque o Brasil está se aproximando cada vez mais da China. E o próprio professor vê uma tendência de empresas chinesas vindo para cá não apenas para vender, mas para investir e produzir. Isso muda completamente a discussão. A China pode ser nossa fornecedora. Pode ser parceira. Pode trazer capital, tecnologia e conhecimento. Pode até participar de joint ventures com empresas brasileiras – caminho que o próprio Hongbin Li aponta como oportunidade para o Brasil subir na cadeia de valor. Mas continuará sendo nossa concorrente. E é justamente aí que está o desafio para a indústria de móveis. Ir à China para aprender é ótimo. Comprar tecnologia chinesa pode ser ótimo. Fazer negócios com os chineses também. Mas existe uma enorme diferença entre usar a China para tornar a indústria brasileira mais competitiva e usar a China para substituir a indústria brasileira. Não precisamos mais olhar para a China apenas com medo. Mas também seria um erro começar a olhar para ela com ingenuidade. Cá entre nós... A questão não é mais se devemos nos aproximar da China. Já estamos fazendo isso. A questão é: o que a indústria brasileira vai trazer de volta dessa aproximação? Tecnologia e conhecimento? Ou móveis prontos? Essa diferença pode decidir muito do futuro da nossa indústria.

7 moveisdevalor.com.br

8 moveisdevalor.com.br JURUBATUBA WEEK MOVIMENTA HISTÓRICO POLO MOVELEIRO DE SP A terceira edição da Jurubatuba Week reuniu cerca de 70 lojas da tradicional Rua Jurubatuba, em São Bernardo do Campo (SP), até 27 de setembro, com descontos de até 70%. Retomada em 2025 após seis anos, a ação busca aumentar o fluxo de consumidores e fortalecer a região como polo especializado em móveis. VAREJO TEM PIOR AGOSTO DESDE 2020, MAS E-COMMERCE AVANÇA O varejo brasileiro registrou queda real de 2% em agosto, segundo o Índice Cielo do Varejo Ampliado, no pior resultado para o mês desde 2020 e no 15º mês consecutivo de retração. Enquanto isso, o e-commerce cresceu 5,1%, e Bens Duráveis e Semiduráveis tiveram queda real de 4,6%. AMBIENTAÇÃO GANHA FORÇA NO VAREJO DE MÓVEIS Com o consumidor chegando à loja depois de pesquisar produtos e preços na internet, a ambientação ganha importância na experiência de compra. Segundo o CX Trends 2026, 56% recorrem a sistemas de busca antes da compra e 54% consideram a experiência anterior com a empresa mais decisiva que o desconto. Ambientes bem planejados ajudam a oferecer aquilo que o digital não consegue reproduzir. MAGALU ENTRA NO MERCADO LIVRE E MUDA DISPUTA NO VAREJO O Magazine Luiza passou a vender cerca de 27 mil produtos de estoque próprio no Mercado Livre, incluindo móveis e eletrodomésticos. A parceria entre concorrentes amplia a audiência do Magalu e reforça uma tendência do varejo: grandes redes combinando canais próprios, marketplaces e logística para ganhar escala. CONSUMIDOR JÁ MISTURA LOJA FÍSICA E INTERNET NA COMPRA Pesquisa Fiserv Insights 2026 mostra que 30% dos brasileiros já combinam canais físicos e digitais durante a compra, enquanto apenas 17% utilizam exclusivamente a loja física. Para o varejo, o desafio é integrar estoque, atendimento e dados para acompanhar um consumidor que já não enxerga online e offline como jornadas separadas. MÓVEIS E DECORAÇÃO RECUAM 4,7% NO 1º TRIMESTRE E 3,7% NO 2º Móveis e Decoração recuaram 4,2% no primeiro semestre de 2026, segundo o Mastercard SpendingPulse™, com queda de 4,7% no primeiro trimestre e de 3,7% no segundo. O resultado ficou abaixo do varejo brasileiro, que avançou 2,9% no período, mas indica redução no ritmo de retração do setor. O desempenho acompanha a cautela do consumidor em compras de maior valor, enquanto categorias como Restaurantes e Farmácias sustentaram o varejo. O Centro-Oeste liderou o crescimento regional, com alta de 2,5% no primeiro trimestre e 5,4% no segundo. VAREJO DE MÓVEIS ANDA DE LADO E NÃO DÁ SINAIS DE EQUILÍBRIO O varejo de móveis chegou a julho ainda no terreno negativo no Brasil. No acumulado do ano, o volume de vendas caiu 2,4%, enquanto a receita nominal ficou praticamente estável, com queda de 0,1%. São Paulo, maior mercado do país, preocupa: queda de 8,5% no volume vendido. PONTO DE VENDA Crédito: Bia Nazário/PMSBC

9 moveisdevalor.com.br

10 moveisdevalor.com.br Empresa precisa reorganizar o caixa antes da virada fiscal O split payment será uma das principais mudanças trazidas pela reforma tributária sobre o consumo. Na prática, o sistema separa automaticamente o imposto no momento do pagamento: a parcela correspondente ao tributo segue para o Fisco e apenas o valor líquido da operação chega ao vendedor. Para o consumidor, praticamente nada muda. Ele continuará pagando o valor integral da compra. A transformação acontece nos bastidores e afeta diretamente a gestão financeira das empresas. Hoje, uma empresa recebe o valor total da venda e recolhe os tributos posteriormente, de acordo com os respectivos vencimentos. Esse intervalo permite que parte do dinheiro permaneça temporariamente no caixa. Com o split payment, essa parcela será segregada automaticamente. O sistema estará disponível no segundo semestre de 2027 para operações B2B, inicialmente de forma opcional, tornando-se obrigatório a partir de 2028. Não há previsão, neste momento, para sua aplicação às vendas do varejo ao consumidor final. Nas transações entre empresas, o imposto recolhido também dará origem ao crédito tributário do comprador. Assim que o tributo for pago, o valor poderá ser utilizado para compensar impostos devidos em outras operações. Bernard Appy, ex-secretário da Reforma Tributária, destaca que um dos objetivos é garantir A partir de 2027, o split payment começa a mudar a forma de recolhimento dos novos tributos sobre o consumo. Para as empresas, a principal preocupação está no caixa: parte do dinheiro da venda deixará de passar pelas mãos do vendedor e vai direto para o Fisco ECONOMIA Por Guilherme Arruda, jornalista convidado

11 moveisdevalor.com.br ao comprador que o imposto foi efetivamente recolhido e que o crédito correspondente estará disponível. “É um instrumento para que o adquirente não fique dependendo da adimplência do fornecedor”, explica. O modelo também reduz uma das fragilidades do sistema atual: a possibilidade de a empresa receber o imposto embutido no preço e não repassá-lo posteriormente aos cofres públicos. Estudo do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), em parceria com a McKinsey, estimou em 2021 perdas de arrecadação entre R$ 95 bilhões e R$ 125 bilhões no varejo, considerando evasão fiscal e tributos trabalhistas. SEM CAPITAL DE GIRO É justamente no caixa das empresas que está uma das maiores preocupações com o novo modelo. Atualmente, existe um intervalo entre o faturamento e o pagamento dos tributos que pode chegar a cerca de 50 dias. Durante esse período, o dinheiro permanece disponível e muitas empresas acabam utilizando esses recursos para financiar necessidades de curto prazo, como compra de matéria-prima, pagamento de fornecedores e até folha salarial. Com a retenção automática do imposto, esse recurso deixa de entrar no caixa. O impacto tende a ser maior para empresas que trabalham com margens reduzidas, ciclos longos de produção ou prazos extensos de recebimento. Negócios muito dependentes desse intervalo entre faturamento e recolhimento dos impostos precisarão rever suas necessidades de capital de giro. Isso não significa necessariamente que o split payment retirará definitivamente recursos das empresas. O novo sistema de créditos tributários foi desenhado justamente para acelerar as compensações. O problema é que muda o momento em que o dinheiro fica disponível – e gestão de caixa é, em grande medida, gestão de tempo. Por isso, a preparação não deve começar

12 moveisdevalor.com.br em 2027. Empresas precisam avaliar desde já quanto de sua liquidez atual depende do prazo existente entre receber uma venda e efetivamente recolher os impostos. REFORMA ENTRA TAMBÉM NO DEBATE ELEITORAL A reforma tributária também chegou ao debate eleitoral de 2026, com diferentes posições sobre possíveis ajustes em sua implementação. Flávio Bolsonaro declarou defender uma transição melhor e maior explicação sobre a formação da futura alíquota. Ronaldo Caiado afirmou que pretende revisar pontos da reforma caso seja eleito. Renan Santos, por sua vez, manifestou posição favorável aos fundamentos da mudança. Independentemente do debate eleitoral, mudanças profundas não dependem apenas da vontade do próximo governo. A reforma está ancorada na Emenda Constitucional nº 132/2023. A regulamentação do split payment também está amparada em leis complementares. Ajustes operacionais podem ser feitos com maior facilidade, mas alterações estruturais dependem do Congresso. Enquanto a discussão política prossegue, a implantação já começou. Documentos fiscais eletrônicos estão sendo adaptados para CBS e IBS, testes ocorrem em 2026 e a CBS passa a valer em janeiro de 2027. Para Giovani Baggio, economista-chefe da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul, a complexidade tecnológica ainda pode interferir no cronograma. “Esse sistema é muito mais complexo que o Pix. Então, acho que corremos o risco de repetir o que aconteceu com o eSocial. Era para entrar em um ano e foi adiado. Talvez isso aconteça com o split payment”, avalia. Para as empresas, entretanto, apostar em um eventual adiamento pode ser arriscado. O ponto central é mais simples: o dinheiro dos impostos deixará de permanecer temporariamente no caixa e isso exige planejamento financeiro. ECONOMIA SAIBA MAIS Manual de Integração: www.cgibs.gov.br/ split-payment Documentação Swagger (APIs): piloto-cbs. tributos.gov.br/servico/calculadora-consumo/ calculadora/documentacao

13 moveisdevalor.com.br

14 moveisdevalor.com.br China altera o jogo na indústria global de móveis D urante décadas, a força da China na indústria mundial de móveis esteve associada principalmente a três fatores: escala, capacidade produtiva e preço. Essa combinação transformou o país na grande fábrica de móveis do planeta e fez da concorrência chinesa uma preocupação permanente para fabricantes dos principais mercados. A China continua gigantesca. Responde por 36% da produção mundial de móveis, 35% das exportações e 23% do consumo global. Nenhum outro país reúne tamanho peso nas três pontas do mercado. Mas os números começam a contar uma história diferente daquela que consolidou a liderança chinesa. Os dados fazem parte do estudo The Furniture Market in China, que analisa produção, exportações, importações, consumo e balança comercial ao longo da última década. O levantamento identifica uma transformação estrutural: a indústria chinesa começa a se afastar do crescimento sustentado principalmente pelo volume para avançar em direção a um modelo mais consolidado e orientado por valor, qualidade e sofisticação. Para quem ainda observa a China apenas como uma enorme concorrente de baixo custo, talvez esteja na hora de atualizar a fotografia. O IMÓVEL DEIXA DE CARREGAR O MÓVEL Uma das explicações para essa mudança está justamente no mercado que impulsionou durante anos o crescimento da indústria moveleira chinesa. Segundo o estudo, o investimento em desenvolvimento imobiliário superou US$ 2,1 trilhões Maior produtora, exportadora e consumidora de móveis deixa para trás a expansão baseada em volume e avança sobre design, tecnologia, personalização e valor ECONOMIA

15 moveisdevalor.com.br em 2021. Em 2025, havia recuado para aproximadamente US$ 1,15 trilhão – uma contração próxima de 46% em apenas quatro anos. O impacto chegou ao mobiliário. O consumo de móveis caiu 22% entre o pico registrado em 2018 e 2025. Mas é justamente aqui que a transformação começa a ficar mais interessante. Mesmo depois dessa retração, a China permanece como o maior mercado de móveis do mundo, com consumo de US$ 101 bilhões em 2025. O que está mudando é a origem dessa demanda. Reforma, substituição do mobiliário e melhoria dos produtos passam a ganhar importância em relação à demanda diretamente associada à construção de novas moradias. O estudo identifica uma mudança de um modelo predominantemente imobiliário para outro cada vez mais influenciado pelo estilo de vida, pelos ciclos de renovação das residências e pela procura por produtos de maior qualidade. Isso muda bastante o jogo. DE FABRICAR MUITO PARA ENTREGAR MAIS VALOR O mercado chinês começa a migrar da expansão baseada em volume para uma estrutura mais consolidada e orientada por valor. De acordo com The Furniture Market in China, os principais fabricantes domésticos ampliam o foco sobre marcas próprias e soluções para a casa inteira. Ao mesmo tempo, plataformas digitais de projeto, integração com a casa inteligente e sustentabilidade começam a redesenhar a competição entre as empresas. Não significa que a escala chinesa esteja desaparecendo. Muito pelo contrário. Significa que aquela extraordinária capacidade industrial começa a ser combinada com atributos que tradicionalmente permitiam às indústrias de outros países escapar de uma competição baseada exclusivamente em preço. PREÇO E CAPACIDADE PRODUTIVA DEIXAM DE SER AS ÚNICAS ARMAS Design, tecnologia, personalização, serviço e experiência começam a ganhar importância. E talvez esteja justamente aí uma das principais mensagens que essa transformação envia à indústria mundial. A casa inteira passar a ser o produto, outra mudança importante aparece na própria maneira de comercializar mobiliário. Segundo o levantamento, A China responde por 36% da produção mundial de móveis, 35% das exportações e 23% do consumo global fabricantes chineses começam a deixar de oferecer exclusivamente peças independentes para avançar em soluções integradas para toda a residência. É o crescimento do chamado whole-home customization – a personalização da casa como um conjunto. Em vez de escolher isoladamente um armário, uma mesa ou outro móvel, o consumidor passa a ser atendido por uma estratégia integrada para os ambientes. A proposta é transformar o mobiliário em parte de uma solução mais ampla para morar. O movimento acompanha a evolução do consumidor chinês, que atribui importância crescente à qualidade do design, funcionalidade e desempenho ambiental dos produtos. Existe ainda um componente geracional re-

16 moveisdevalor.com.br Para o varejo, significa que vender apenas uma peça pode ser cada vez menos suficiente. O VAREJO TAMBÉM ESTÁ MUDANDO A transformação chinesa não termina na fábrica. O estudo mostra que os tradicionais grandes centros nacionais de mobiliário continuam sendo importantes para a distribuição, mas começam a evoluir para ambientes de experiência. Paralelamente, cresce o chamado social commerce. Plataformas como Douyin, versão chinesa do TikTok, utilizam transmissões ao vivo baseadas em situações realistas como instrumento de vendas, principalmente junto aos consumidores mais jovens e ao mercado de massa. Na Xiaohongshu, também conhecida como Little Red Book, criadores de conteúdo passam a funcionar como uma espécie de agentes comerciais, combinando avaliações, inspiração estética e influência sobre a compra. É uma transformação particularmente interessante porque reduz a distância entre conteúdo, comunicação e venda. O consumidor pode descobrir um ambiente em uma rede social, buscar referências, acompanhar uma apresentação e depois visitar fisicamente uma loja. E aqui aparece uma constatação que merece atenção do varejo brasileiro: a digitalização não eliminou a importância da experiência física. O DIGITAL LEVA O CONSUMIDOR PARA A LOJA As marcas chinesas avançam para um modelo conhecido como Online-Merge- -Offline (OMO), que procura integrar a jornada digital à experiência presencial. Preços, promoções e estoques são coordenados entre os diferentes pontos de contato, permitindo que o tráfego criado digitalmente seja convertido também em visitas a showrooms e lojas. A razão é bastante simples. Segundo The Furniture Market in China, o consumidor aprecia a conveniência de pesquisar móveis digitalmente, mas continua querendo a experiência tátil do produto antes da compra. É uma constatação especialmente interessante levante. O estudo destaca os consumidores entre 25 e 35 anos como importantes impulsionadores da procura por ambientes tecnologicamente integrados. Plataformas digitais permitem visualizar e personalizar virtualmente toda a residência antes da decisão de compra. A personalização, portanto, deixa de significar apenas escolher acabamento, medida ou cor. Ela passa a envolver a própria concepção da residência. O MÓVEL INTELIGENTE DEIXA DE SER CURIOSIDADE A tecnologia também começa a ocupar outro espaço dentro da indústria. O levantamento aponta que o móvel inteligente já não pode ser tratado simplesmente como uma curiosidade de nicho. As aplicações começam a aparecer em diferentes situações – desde adaptações residenciais destinadas à população idosa até ambientes pensados para animais de estimação e quartos de alto desempenho para games. Mais importante do que cada aplicação isoladamente é a lógica por trás dessa transformação. A tecnologia passa a responder a necessidades concretas do morador. Com isso, aproximam-se segmentos que durante muito tempo funcionaram separadamente: mobiliário, automação, entretenimento e serviços digitais. Para o fabricante, significa ampliar sua participação dentro da residência. ECONOMIA

17 moveisdevalor.com.br

18 moveisdevalor.com.br num momento em que também no Brasil se discute o futuro da loja física diante do avanço do comércio eletrônico, das redes sociais e da inteligência artificial. A experiência chinesa sugere que a questão talvez não seja escolher entre loja física e digital. É fazer com que uma complete a outra. 5 MOVIMENTOS DA CHINA QUE O BRASIL PRECISA OBSERVAR 1. Menos dependência da casa nova Reforma e substituição do mobiliário ganham importância à medida que diminui o impulso proporcionado pelo mercado imobiliário. 2. Da peça para a casa inteira A personalização integrada transforma toda a residência em oportunidade comercial. A indústria deixa de pensar somente no produto e começa a pensar na solução. 3. Tecnologia incorporada ao morar Projeto digital, plataformas inteligentes e mobiliário conectado começam a fazer parte da mesma experiência residencial. 4. Conteúdo se aproxima da venda Livestreams e criadores das plataformas sociais ajudam a transformar inspiração, recomendação e entretenimento em ferramentas comerciais. 5. A loja física muda de função O consumidor pesquisa e se inspira digitalmente, mas continua querendo experimentar o móvel. O físico deixa de competir com o digital para tornar-se parte da mesma jornada. UMA TRANSFORMAÇÃO QUE ULTRAPASSA A CHINA Toda essa mudança teria importância suficiente se estivesse acontecendo em qualquer grande mercado. Na China, ganha outra dimensão. Estamos falando do país responsável por mais de um terço de toda a produção e das exportações mundiais de móveis. E isso significa que qualquer avanço significativo em sua indústria tem potencial para alterar a competição internacional. Durante muito tempo, fabricantes de diferentes partes do mundo procuraram enfrentar a concorrência chinesa evitando uma disputa exclusivamente por preço. Design, personalização, qualidade percebida, sustentabilidade e serviço passaram a funcionar como instrumentos de diferenciação. Agora, esses mesmos atributos começam a aparecer com maior intensidade na estratégia chinesa. O próprio estudo resume a direção dessa transformação: com o encerramento da era de rápido crescimento baseado em volume, a próxima fase do mercado chinês deverá ser marcada pelo desenvolvimento orientado pelo design, pela personalização da casa inteira e pelo consumo orientado por valor. O ALERTA PARA O BRASIL É justamente nesse ponto que a transformação da China deixa de ser uma curiosidade sobre o maior mercado moveleiro do planeta e passa a interessar diretamente à indústria brasileira. A China não está abandonando aquilo que a tornou competitiva. Continua dispondo de enorme escala industrial, cadeias produtivas estruturadas e presença internacional. O que está fazendo é acrescentar novas camadas a essa capacidade. Se design, personalização, tecnologia, experiência e soluções integradas ganharem cada vez mais espaço ao lado da escala e da eficiência industrial, a competição internacional tende a ficar mais sofisticada. Para a indústria brasileira, portanto, talvez o principal alerta não esteja na possibilidade de a China continuar produzindo móveis baratos em enorme quantidade. O verdadeiro desafio começa quando a maior fábrica de móveis do planeta aprende também a competir por design, tecnologia, experiência e valor. ECONOMIA

19 moveisdevalor.com.br

20 moveisdevalor.com.br

21 moveisdevalor.com.br

22 moveisdevalor.com.br Varejo de móveis movimenta bilhões, e cresce sob pressão O varejo brasileiro de móveis continua movimentando cifras expressivas, mas os números do Ranking IRTT TOP 300 do Varejo Brasileiro 2026 revelam um mercado no qual tamanho, capilaridade e presença digital estão produzindo estratégias bastante diferentes. O levantamento considera o desempenho de 2025 e reúne 23 empresas na categoria Eletromóveis. Juntas, elas faturaram R$ 91,6 bilhões, equivalentes a 6,9% das vendas das 300 maiores varejistas brasileiras. Entre as empresas com dados comparáveis, o crescimento chegou a 8,2%. O resultado chama atenção porque ocorreu em um ambiente pouco favorável aos bens duráveis, marcado por juros elevados e restrições ao crédito. É justamente nesse cenário que aparecem diferenças importantes entre as estratégias adotadas pelas principais redes. CASAS BAHIA PERMANECE MUITO À FRENTE Entre as empresas com forte presença na comercialização de móveis, o Grupo Casas Bahia opera em uma escala difícil de comparar às demais. A companhia aparece na 7ª posição entre todas as varejistas brasileiras, com vendas de R$ 33,833 bilhões em 2025, crescimento de 7%. Ranking IRTT mostra força das grandes redes, relevância dos grupos regionais e estratégias muito diferentes para competir em um mercado ainda pressionado pelos juros VAREJO

23 moveisdevalor.com.br A rede terminou o período com 1.042 lojas, 2% menos que no ano anterior, mas conseguiu ampliar o faturamento. O ranking também registra forte presença digital, atuação em marketplaces e prioridade alta para projetos de inteligência artificial. GAZIN CRESCE E LOJAS CEM DESAFIA A LÓGICA DIGITAL A Gazin aparece na segunda posição de Eletromóveis, com R$ 13,753 bilhões, avanço de 14%. Passou de 358 para 378 lojas e está presente em nove estados, demonstrando como uma companhia de origem regional pode ganhar escala sem necessariamente construir uma presença física nacional. Logo depois aparece a Lojas Cem, com R$ 8,327 bilhões e crescimento de 7%. Mas seu dado mais curioso não está no faturamento. Enquanto praticamente todos os grandes concorrentes avançaram para o comércio eletrônico, o ranking registra a empresa sem e-commerce. Com 312 lojas concentradas em quatro estados, a rede sustenta uma operação bilionária essencialmente sobre lojas físicas – evidência de que não existe uma única fórmula para competir no varejo de móveis. COLCHÕES TAMBÉM APARECEM ENTRE OS GIGANTES A Ortobom ocupa a sexta posição de Eletromóveis, com R$ 4 bilhões em vendas e 2.400 lojas, segundo o levantamento. A capilaridade proporcionada pelo modelo de operação da marca coloca o segmento de colchões entre os grandes negócios do varejo brasileiro. Depois das primeiras posições surge um conjunto bastante pulverizado de empresas regionais e especializadas. Lojas Colombo registra R$ 2,616 bilhões; Lojas Becker, R$ 2,150 bilhões; Mercado Móveis, R$ 2,070 bilhões; e o Grupo Toky, formado por Números superlativos, mas pressão também está em alta Tok&Stok e Mobly, R$ 1,927 bilhão. TOK&STOK E MOBLY MUDAM DE ESCALA A união entre Mobly e Tok&Stok é um dos movimentos estruturais destacados pelo IRTT. A operação levou o Grupo Toky a avançar 102 posições no ranking, chegando ao 130º lugar entre as maiores varejistas brasileiras. O caso é especialmente interessante para o setor porque aproxima empresas que nasceram de modelos praticamente opostos – uma fortemente ligada à loja física e outra originada no comércio eletrônico – e que agora precisam extrair valor justamente da integração desses canais.

24 moveisdevalor.com.br REGIONALIZAÇÃO CONTINUA RELEVANTE Apesar da presença de grandes grupos, o varejo brasileiro de móveis e eletrodomésticos permanece fragmentado. Das 23 empresas classificadas em Eletromóveis, 16 estão abaixo da 100ª posição do ranking nacional. Predominam empresas de capital fechado e atuação regional, muitas presentes em poucos estados. Essa estrutura mantém redes locais importantes em seus mercados, mas também cria desafios de escala diante dos grandes marketplaces e grupos mais capitalizados. DIFERENTES CAMINHOS PARA O MESMO MERCADO Talvez essa seja a principal mensagem do levantamento. Casas Bahia procura eficiência e reorganização em enorme escala. Gazin cresce mantendo forte presença regional. Lojas Cem continua apostando essencialmente na loja física. Ortobom alcançou capilaridade singular no segmento de colchões. E Tok&Stok e Mobly procuram transformar a união em integração efetiva entre canais. A tecnologia também avança em velocidades diferentes. O e-commerce já está disseminado entre as grandes redes, enquanto a inteligência artificial ainda apresenta níveis bastante distintos de prioridade. O ranking mostra, portanto, que o varejo de móveis não está seguindo uma única direção. Diferentes modelos tentam responder ao mesmo desafio: crescer em um mercado dependente de crédito, pressionado pelos juros e no qual o consumidor já transita naturalmente entre a loja física e o ambiente digital. Fonte: Ranking IRTT TOP 300 do Varejo Brasileiro 2026 – Instituto Retail Think Tank. Os valores referem-se às vendas de 2025 e, conforme a metodologia do estudo, não incluem vendas de sellers realizadas nos marketplaces das empresas. Dezenas de redes regionais continuam relevantes para os consumidores em seus mercados TOP 10 CONCENTRAM 85% DAS VENDAS DE ELETROMÓVEIS As dez maiores somam R$ 78,0 bilhões, cerca de 85% dos R$ 91,6 bilhões movimentados pelas 23 empresas que compõem o segmento no ranking. Isso evidencia uma concentração muito forte no topo. Fonte: Ranking IRTT TOP 300 do Varejo Brasileiro 2026. Vendas referentes a 2025, sem incluir as vendas de sellers realizadas nos marketplaces das empresas (3P). VAREJO

25 moveisdevalor.com.br

26 moveisdevalor.com.br Lojas CEM cresce na contramão e desafia lógica do varejo digital E nquanto algumas das maiores redes varejistas brasileiras fecham lojas e revêem o tamanho de suas operações, uma empresa que vende móveis e eletrodomésticos segue praticamente na direção oposta. E utilizando uma fórmula que, à primeira vista, poderia parecer ultrapassada. A Lojas CEM chegou a 312 unidades em 2026 mantendo suas vendas exclusivamente no varejo físico, sem uma operação tradicional de comércio eletrônico. Atendimento presencial, crediário próprio, expansão gradual e forte controle financeiro continuam formando a base de um modelo construído ao longo de mais de sete décadas. O contraste chama atenção justamente agora. Desde o final de 2022, Casas Bahia, Americanas, Carrefour, Marisa e Magazine Luiza reduziram, juntas, mais de 1,1 mil lojas físicas. O levantamento da Broadcast considera a redução líquida das redes, descontadas eventuais inaugurações no período. As razões são diferentes em cada companhia. Casas Bahia e Americanas enfrentam processos de recuperação judicial; Carrefour eliminou sobreposições após a integração do Grupo BIG; Marisa vem buscando uma estrutura menor e mais rentável; e Magazine Luiza reduziu unidades dentro de um movimento de maior disciplina financeira — e já sinalizou retomada da expansão física. A comparação, portanto, não autoriza uma conclusão simplista de que um modelo funciona e os demais fracassaram. Mas permite fazer uma pergunta importante: o problema está na loja física ou na maneira como ela é administrada? SEM E-COMMERCE POR DECISÃO PRÓPRIA No caso da Lojas CEM, a opção pelo físico não é apenas uma herança do passado. A própria companhia informa claramente em seu site que vende exclusivamente em suas lojas. O ambiente digital é utilizado para mostrar ofertas, localizar unidades, prestar serviços e estabelecer contato com os consuEnquanto cinco grandes redes reduzem mais de 1,1 mil pontos físicos, a varejista fundada em Salto (SP), em 1952, pelo imigrante italiano Remígio Dalla Vecchia, chega a 312 lojas físicas apostando em atendimento, crédito próprio e disciplina financeira Foto: Divulgação Centro de Distribuição da Lojas CEM, em Salto (SP) VAREJO

27 moveisdevalor.com.br midores, mas a transação comercial continua acontecendo no ponto de venda. É uma estratégia bastante particular em um varejo que passou os últimos anos investindo pesadamente em omnicanalidade, aplicativos, marketplaces e plataformas digitais. E os resultados ajudam a tornar o caso ainda mais relevante. Segundo reportagem publicada pela Veja, a Lojas CEM registrou em 2025 receita líquida de R$ 5,9 bilhões e lucro líquido de R$ 1,3 bilhão. A margem líquida apontada foi de 21,6%. A expansão permanece orgânica e financiada com recursos da própria companhia. A história recente mostra que crescimento também não é novidade. A empresa tinha 183 lojas em 2010, chegou a 234 em 2015, alcançou 278 em 2019, ultrapassou a marca de 300 em 2022 e soma atualmente 312 unidades. O IMÓVEL TAMBÉM FAZ DIFERENÇA Há outro detalhe importante por trás dessa estrutura: quase todas as lojas funcionam em imóveis próprios. Isso ajuda a explicar por que simplesmente comparar quantidade de lojas pode levar a conclusões equivocadas. Uma rede com centenas de imóveis alugados, despesas elevadas, estoques pulverizados e alto endividamento possui uma estrutura econômica completamente diferente de outra que controla boa parte dos pontos onde opera e financia sua expansão com recursos próprios. Em outras palavras, 312 lojas podem representar um problema ou um patrimônio. Depende de como a rede foi construída. É justamente essa diferença que ganha importância diante do processo de enxugamento observado em outras grandes varejistas. Na Casas Bahia, por exemplo, o plano anunciado em agosto prevê o fechamento de 298 unidades. Se integralmente executado, fará com que a companhia tenha reduzido sua rede em aproximadamente 400 pontos em menos de quatro anos. A medida integra uma reestruturação que busca priorizar geração de caixa e rentabilidade. CRÉDITO CONTINUA DENTRO DA LOJA Outro elemento central do modelo da Lojas CEM é conhecido há décadas pelo varejo de móveis: o crediário próprio. A análise e a aprovação do crédito acontecem dentro da própria loja. A companhia oferece pagamento por carnê, inclusive em até 15 parcelas em determinadas condições, além de cartão. Também Giácomo, Natale e Cícero Dalla Vecchia, filhos de “seu Gino”, fundador da Lojas CEM Desde que começou a expandir as lojas, a CEM adquiriu os imóveis Lojas físicas são a sustentação da Lojas CEM há 74 anos

28 moveisdevalor.com.br A própria trajetória recente do Magazine Luiza mostra como a discussão é mais complexa. Depois de reduzir sua rede física, a empresa decidiu voltar a inaugurar lojas. No segundo trimestre de 2026, suas vendas no físico cresceram 10,3%, enquanto o e-commerce recuou 11,9%. Portanto, talvez a divisão entre loja física e loja digital esteja ficando velha. O que importa é encontrar um modelo economicamente sustentável para conquistar, atender e manter o consumidor. UMA LIÇÃO PARA QUEM VENDE MÓVEIS É aqui que o caso da Lojas CEM fica particularmente interessante para o setor moveleiro. Móveis pertencem a uma categoria na qual a loja física ainda consegue oferecer vantagens difíceis de reproduzir completamente pela tela. O consumidor pode sentar no sofá, abrir portas e gavetas, perceber dimensões, tocar materiais, comparar acabamentos e conversar sobre entrega, montagem e condições de pagamento. Isso não torna automaticamente uma loja rentável. O que o contraste entre a Lojas CEM e as redes que estão reduzindo suas estruturas sugere é algo diferente: não é a quantidade de lojas que determina a qualidade de uma operação. Uma unidade precisa vender, girar estoque, oferecer serviço, conhecer seu consumidor e produzir retorno compatível com o capital que exige. Nesse sentido, talvez a Lojas CEM não seja exatamente um exemplo de varejo “à moda antiga”. Seu modelo pode ser tradicional, mas a lógica empresarial por trás dele é bastante atual: crescer sem perder produtividade, preservar relacionamento com o cliente, controlar o crédito, evitar endividamento excessivo e abrir lojas quando existe justificativa econômica para isso. Não significa que outros varejistas devam abandonar o e-commerce e copiar a estratégia. Empresas, públicos, regiões e estruturas financeiras são diferentes. O próprio caso apresentado inicialmente já deixa claro que não existe fórmula única para o varejo. Mas, num momento em que cinco gigantes eliminaram mais de 1,1 mil pontos físicos, uma rede que continua abrindo lojas merece ser observada. Talvez a principal conclusão seja justamente aquela que parece mais simples: o problema não é ter loja física. O problema é ter uma loja que não justifique sua existência. E tudo começou em 1952, com uma loja de bicicletas em Salto (SP) permite escolher datas de pagamento e antecipar parcelas com desconto. Isso transforma o crédito em parte da relação entre vendedor e consumidor – e não apenas em um meio de pagamento fornecido por terceiros. Em categorias de tíquete mais elevado, como móveis e eletrodomésticos, essa característica ganha importância. O vendedor não está apenas apresentando o produto; participa também da construção das condições que podem viabilizar a compra. O DIGITAL NÃO IMPORTA? Seria igualmente equivocado chegar a essa conclusão. O comércio eletrônico brasileiro continua crescendo. Em 2025, as vendas online movimentaram R$ 423 bilhões e representaram 14,4% do varejo, segundo estimativas do UBS BB citadas no levantamento da Broadcast. A projeção para 2026 é de R$ 518 bilhões e participação de 16,7%. VAREJO

29 moveisdevalor.com.br

30 moveisdevalor.com.br Que experiência o consumidor busca ao comprar móveis? Leitor da Móveis de Valor já está acostumado a ver a opinião de especialistas em varejo, lojistas e até fabricantes sobre o que o consumidor está comprando e o que pode ser feito para oferecer uma melhor experiência de compra. Mas, agora chegou a hora de saber diretamente de alguns consumidores sobre suas experiências em compra de móveis, se preferem pela internet ou em lojas físicas, como são atendidos pelos vendedores, quais serviços podem ser bons diferenciais e quais tipos de móveis compraram recentemente. Para isso, fizemos uma pesquisa com 80 pessoas por meio de um questionário que tinha perguntas com apenas uma possibilidade de resposta e outras em que se podiam selecionar até cinco opções. Também aproveitamos para conhecer um pouco mais desses consumidores e conversamos diretamente com três mulheres, uma moradora de São Paulo, outra do Paraná e uma do Ceará. Um ponto de atenção na primeira pergunta desse formulário: 70% dos respondentes só compram móveis quando realmente há necessidade e 15% compram a cada dois ou três anos, enquanto a maioria das pessoas entrevistadas comprou um móvel pela última vez há mais de dois anos (33,8%). Quando perguntados sobre o tipo de móvel que compraram recentemente, 13,8% disseram que foi sofá, 12,5% armário ou móveis para cozinha e apenas 1,2% (o que corresponde a apenas uma pessoa) indicou móveis infantis. Segundo os entrevistados (essa pergunta tinha até 5 opções de resposta), 57,5% preferem faA Móveis de Valor elaborou uma pesquisa para entender melhor que tipo de experiência o consumidor quer ter em lojas de móveis, como ele está comprando e a importância dos vendedores e serviços adicionais para fechar uma compra VAREJO Por Natalia Concentino, jornalista

31 moveisdevalor.com.br zer pesquisa em lojas físicas antes de comprar um móvel e 55% confirmaram que acessavam sites de lojas de móveis antes de fazer as compras. Ana Paula Rodrigues Morais, auxiliar de cartório e moradora de São José dos Pinhais (PR), revela que faz uma grande pesquisa na internet antes de comprar qualquer peça de mobiliário. “Mesmo quando tenho a intenção de comprar em uma loja física eu pesquiso na internet preço, avaliações sobre qualidade e conforto, além de dar uma olhada no Reclame Aqui para ver qual é a reputação da loja que pretendo ir e do produto em si”, conta. Vanessa Benato, farmacêutica e moradora de São Paulo (SP), também usa a internet para pesquisar antes de comprar. “Eu sempre procuro no Google, entro no perfil das lojas no Instagram avaliando postagens, seguidores e se tem pessoas conhecidas que seguem a página. Costumo sempre considerar o preço como algo muito importante e leio as avaliações, o estado em que o produto chegou (no caso de compra online) e tento ver como esse móvel se encaixaria na minha casa, mas admito que não acompanho muito as tendências”, diz. “Pesquiso em sites e redes sociais antes de comprar um móvel. Na hora de escolher, levo principalmente em consideração a funcionalidade e o valor do produto, procurando uma opção que atenda às minhas necessidades”, conta Marta Cignachi, professora de educação física e moradora de Fortaleza (CE). Apesar da pesquisa na internet antes da compra, não quer dizer que o consumidor prefere comprar online, pelo menos é o que apontou o questionário que elaboramos. 43,8% dizem ainda preferir comprar em lojas físicas, enquanto 26,3% acreditam que depende do tipo de móvel, inclusive um consumidor deixou uma mensagem dizendo que “compraria uma mesa pela internet, mas não um sofá”. Analisando os números que obtivemos, o preço mais baixo, a facilidade, as promoções e a entrega são os grandes motivadores para uma compra online. Porém, como a maioria dos nossos respondentes prefere comprar em lojas físicas, perguntamos o que os leva até elas: Ana Paula Rodrigues Morais, auxiliar de cartório e moradora de São José dos Pinhais (PR) Vanessa Benato, farmacêutica e moradora de São Paulo (SP) Marta Cignachi, professora de educação física e moradora de Fortaleza (CE) 83,8% disseram que querem ver o produto pessoalmente, além de ver a qualidade e o acabamento (78,8%), conferir o tamanho e as proporções (56,3%) e 53,8% gostam de tocar o móvel. A IMPORTÂNCIA DO VENDEDOR Se a maioria dos consumidores ainda prefere comprar em lojas físicas, perguntamos a eles o que esperam de um vendedor e quais as características precisam ter para que as compras sejam fechadas. Para 46,2% dos respondentes o vendedor é importante na hora da compra e outros 24,4% o consideram muito importante, ou seja, o cliente que procura uma loja física quer ser bem atendido, sanar suas dúvidas e negociar diretamente com um profissional qualificado. Marta Cignachi é uma dessas pessoas. “O atendimento é muito importante na hora da compra. Espero que o vendedor consiga passar informações sobre a qualidade, o material e o valor do produto. Nas lojas que visitei, na maioria das vezes fui bem atendida e encontrei

32 moveisdevalor.com.br móveis que atendiam às minhas necessidades de metragem e modelo”, afirma. A farmacêutica Vanessa Bonato afirma que ela e o marido deixaram de comprar em uma das lojas que visitaram por conta de um vendedor ansioso, situação que mudou completamente na loja que visitaram na sequência e fecharam negócio. “Não conseguíamos olhar direito e escolher um sofá porque ele ficava nos mostrando vários modelos ao mesmo tempo. Queremos ter espaço e que o vendedor entenda que, assim que surgir uma dúvida, iremos chamá-lo”. Já Ana Paula, que atualmente vive no Paraná, mas morou em Mogi das Cruzes (SP) e já fez muitas compras de móveis, acredita que o atendimento vem melhorando nas lojas e que os vendedores parecem estar mais bem informados. “Ainda acho que o atendimento em São Paulo costuma ser melhor, porém tive boas experiências nas lojas paranaenses que fui recentemente. Por exemplo, em uma loja de estofados fui muito bem atendida, o vendedor tinha informações técnicas, apresentou cores, me perguntou sobre o ambiente em que aquele móvel seria colocado... antigamente era diferente, eles não sabiam VAREJO

33 moveisdevalor.com.br

34 moveisdevalor.com.br falar muito sobre qualidade, materiais e nem sobre as tendências”, pontua. E essa observação faz sentido, pois 48,8% das pessoas afirmaram que os vendedores conseguem, na maioria das vezes, explicar adequadamente as características dos produtos, enquanto apenas 6,3% entendem que isso acontece raramente. São justamente explicações sobre qualidade e durabilidade que a maioria das pessoas quer ouvir dos vendedores, segundo os pesquisados, já que esse item foi selecionado por 71,3%, seguido pelas medidas (57,5%), prazo de entrega e materiais utilizados, ambos com 48,8% dos cliques. “O vendedor precisa fazer a leitura do cliente” Vanessa Benato, farmacêutica e moradora de São Paulo (SP) O QUE OS CONSUMIDORES ESPERAM DAS LOJAS FÍSICAS Outra questão que os respondentes podiam selecionar até cinco itens perguntava o que eles esperam encontrar ao entrarem em uma loja física. O item mais escolhido (com 66,3% dos votos) foi produtos bem expostos, seguido de preços visíveis (58,8%) e ambientes montados que ajudem a visualizar o móvel na casa (57,7%). Outros dois aspectos que quisemos analisar foi a influência de outros serviços ofertados pela loja para o fechamento da compra. Colocamos alguns itens para serem votados e demos a opção para os respondentes de selecionarem até cinco deles, a partir daí percebemos que 71,3% escolheram entrega rápida, 70% montagem gratuita, 66,3% frete grátis, 50% assistência pós-venda e 47,5% facilidade de pagamento. Aproveitamos também para entender o que faria esse consumidor optar por fazer mais compras online em contrapartida à essa preferência pelas lojas físicas e entendemos que o preço continua sendo um fator crucial, pois 61,3% das pessoas o assinalaram, seguido por fotos e vídeos mais detalhados (45%), avaliações de consumidores (41,3%) e frete mais barato (37,5%). FASES DA VIDA INFLUENCIAM AS COMPRAS As prioridades mudam ao longo da vida, e a maneira de escolher móveis muda junto. Renda, tipo de moradia, composição da família e experiências anteriores ajudam a definir o que o consumidor valoriza em cada momento, do preço e da possibilidade de trocar com frequência à qualidade, funcionalidade e durabilidade. Ana Paula Rodrigues Morais percebe claramente essa mudança quando compara suas escolhas atuais com as do início dos anos 2000, quando se casou. Naquela época, comprava em lojas mais populares, preocupava-se pouco com as medidas – “dava um jeito” de encaixar os móveis em casa – e gostava de substituí-los com frequência. “Eu gostava de ir comprando, não sabia exatamente como combinar esses produtos e pensava que jamais compraria móveis VAREJO

RkJQdWJsaXNoZXIy MzE5MzYz