Móveis de Valor - Edição 257

68 moveisdevalor.com.br A ilusão de que subir preços significa ganhar mais Existe uma percepção relativamente comum em momentos de inflação: a ideia de que as empresas aumentam preços porque querem lucrar mais. Na prática, especialmente na indústria de transformação – ou em categorias de maior competição – a realidade costuma ser muito diferente. Uma das maiores confusões do debate econômico está em tratar valor, preço e custo como se fossem a mesma coisa. Não são. O valor de um produto está relacionado à sua necessidade ou utilidade, sendo influenciado também pelas condições de oferta e demanda. É o quanto o mercado está disposto a pagar por ele. Mas o custo nasce em outro lugar: na estrutura necessária para produzir, transportar, financiar, armazenar e disponibilizar esse produto ao consumidor. Já o preço é o valor efetivamente praticado na venda. Teoricamente, o custo define o piso, o valor percebido estabelece o teto, e o preço é o valor estratégico que deveria ficar entre os dois. O grande problema é quando o custo “empurra” o preço, rompendo a noção de valor. Aí mora uma das grandes tensões da economia atual. O Brasil vive um cenário em que o consumo desacelera, o crédito permanece caro, o investimento perde força e, ainda assim, os custos continuam subindo. À primeira vista, parece contraditório. Como pode existir inflação em meio à desaceleração econômica? A resposta está justamente nos diferentes tipos de inflação. Existe a inflação clássica de demanda, quando as pessoas consomem mais e a procura eleva os preços. Mas existe também a inflação de custos. Ela aparece quando sobe o combustível, a energia, os juros, a carga tributária, os insumos, o frete, os custos trabalhistas e o próprio custo do capital. No setor moveleiro isso é particularmente sensível. A madeira sofre influência cambial. As ferragens acompanham o aço. Os tecidos dependem de cadeias globais. Os vidros sofrem impactos energéticos. A espuma e materiais de pintura acompanham derivados do petróleo. O transporte depende do diesel. E o varejo depende profundamente de crédito. Quando o desequilíbrio fiscal aumenta, o Estado precisa captar mais recursos. Isso pressiona os juros. Juros mais altos encarecem o crédito. Crédito caro reduz o consumo e trava investimentos. O consumidor perde capacidade de financiamento e o empreendedor perde capacidade de expansão. Ou seja: vende-se menos e custa-se mais produzir. É o pior dos mundos. As crises internacionais amplificam esse processo. O mundo integrado faz com que conflitos geopolíticos, oscilações cambiais ou problemas logísticos globais acabem impactando diretamente o custo de produção no Brasil. Mas existe também outra inflação menos comentada: a provocada pela restrição de oferta. Em alguns segmentos, empresas reduzem produção, seguram disponibilidade ou diminuem investimentos diante da insegurança econômica. Com menor oferta, os preços naturalmente sofrem pressão de alta. Não necessariamente por ganância, mas muitas vezes por cautela. Essa dinâmica é preocupante porque afeta a renda e impacta ainda mais o consumo. Forma-se uma possível “bola de neve” que, quanto mais gira, maior fica. Existe ainda um fator estrutural que pesa sobre tudo isso: o custo do Estado. O problema não está apenas na arrecadação, mas na relação entre o que se arrecada e o que retorna em eficiência para a sociedade. Quando a estrutura pública cresce de forma desproporcional, burocrática e improdutiva, o setor produtivo inteiro absorve esse peso em cadeia: ARTIGO Por Geraldo Pazda

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