MV Norte & Nordeste

55 Mas ambos mostram como o design pode acrescentar significado a um produto. No Brasil, a fauna, as paisagens e os conhecimentos regionais oferecem possibilidades para desenvolver uma linguagem própria. Nas parcerias com a moda, o mobiliário passa a incorporar elementos de identidade de marcas reconhecidas internacionalmente. Em ambos os casos, o resultado depende da capacidade de transformar referências em soluções efetivas de produto. Não basta associar uma peça a um animal, a uma paisagem ou a uma grife. É necessário que essa relação encontre expressão no desenho, nos materiais, na qualidade e na experiência de uso. Para a indústria brasileira, a principal oportunidade está em reconhecer o valor de seu repertório cultural e natural sem abandonar as exigências de competitividade. O design pode ajudar o móvel a conquistar espaço não apenas pelo preço ou pela função, mas também pelo significado que entrega. Afinal, se a moda conseguiu transformar roupas em símbolos de identidade, o mobiliário também pode ampliar seu papel como expressão de quem somos e de como escolhemos viver. O PATRIMÔNIO DO DESIGN GANHA NOVAS INTERPRETAÇÕES A Gucci adotou uma abordagem semelhante no projeto Design Ancora, apresentado durante o Salão do Móvel de Milão de 2024. A marca selecionou cinco peças do design italiano do século XX, incluindo criações de Nanda Vigo, Gae Aulenti, Mario Bellini e Tobia Scarpa. Entre elas estava o Storet, desenvolvido por Nanda Vigo em 1994 e posteriormente relançado pela Acerbis. As peças foram apresentadas dentro do universo visual do Rosso Ancora, tonalidade que integrava a identidade da Gucci naquele momento. O projeto funcionou também como uma valorização da memória do design italiano. Ao reinterpretar objetos conhecidos, a grife associou sua linguagem à trajetória de criadores e fabricantes que contribuíram para a história do mobiliário. A relação entre os dois setores ganha outra dimensão quando a colaboração interfere não apenas na aparência, mas também nas características construtivas do produto. É o caso da parceria entre Stella McCartney e B&B Italia. A estilista reinterpretou a série Le Bambole, criada por Mario Bellini em 1972, aplicando a estampa Fungi Forest, originária de sua coleção de moda. Entretanto, o trabalho foi além do revestimento. A nova versão considerou princípios de circularidade, incorporando estrutura desmontável e materiais selecionados para facilitar manutenção, recuperação e reciclagem. Nesse exemplo, a contribuição da moda ultrapassa a dimensão estética e participa de decisões relacionadas ao ciclo de vida do mobiliário. A CASA TAMBÉM EXPRESSA UMA MARCA A italiana La DoubleJ representa outro caminho dessa aproximação. Conhecida pelas estampas expressivas e pelo uso intenso de cores, a marca começou a desenvolver produtos para a casa em 2017. No ano seguinte, estabeleceu uma colaboração com a Kartell. Sua linguagem visual passou a aparecer em peças consagradas da fabricante, incluindo criações de Joe Colombo e os Componibili, de Anna Castelli Ferrieri. O resultado reforça uma mudança na maneira como marcas de diferentes setores compreendem o ambiente doméstico. Se a moda permite expressar identidade por meio das roupas, o mobiliário oferece uma possibilidade semelhante dentro da casa. Isso ajuda a explicar o interesse de grifes que construíram sua reputação no vestuário por objetos destinados aos espaços onde seus consumidores vivem. DIFERENTES ORIGENS, UM DESAFIO COMUM A inspiração na biodiversidade brasileira e as colaborações internacionais entre moda e mobiliário não representam um único movimento criativo. Seus processos, referências e objetivos são diferentes. Sofá Granbambola, fruto de uma colaboração entre a grife Stella McCartney e a marca italiana de design B&B Italia

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