Móveis de Valor - Edição 258

35 moveisdevalor.com.br publicaram o livro Nomadic Furniture. Em meio à crise do petróleo e ao aumento dos custos de produção, os autores defendiam móveis leves, desmontáveis, multifuncionais e fáceis de transportar. Naquele momento, a proposta respondia a um cenário econômico específico, mas também antecipava a discussão de desenvolver produtos preparados para uma sociedade cada vez mais dinâmica. Cinco décadas depois, o contexto é diferente, mas diversos fatores voltaram a convergir na mesma direção. O preço dos imóveis aumentou em grandes centros urbanos, o período médio até a compra da casa própria se alongou e as mudanças profissionais passaram a fazer parte da trajetória de muitas pessoas. Paralelamente, a digitalização do trabalho reduziu a importância da localização física para diversas ocupações, permitindo que profissionais mudem de cidade sem, necessariamente, trocar de emprego. A casa deixou de representar um destino definitivo e passou a acompanhar um percurso muito mais flexível. Estudos realizados na Universidade de São Paulo identificam o surgimento de consumidores que permanecem mais tempo em imóveis alugados e precisam montar, desmontar e reorganizar seus lares com frequência. Nos Estados Unidos, uma pesquisa conduzida pelo Rochester Institute of Technology chegou a conclusões semelhantes ao analisar o comportamento dos chamados “urban nomads” – profissionais que se deslocam repetidamente em busca de oportunidades de trabalho. Um móvel pensado para acompanhar esse perfil de consumidor precisa suportar sucessivas mudanças, adaptar-se a plantas diferentes, ser desmontado diversas vezes e continuar oferecendo a mesma funcionalidade ao longo desse processo. Em outras palavras, o projeto passa a considerar a trajetória do usuário. Para o cientista de consumo Paulo Escrivano, essa transformação modifica profundamente a relação emocional estabelecida entre as pessoas e seus móveis. Segundo ele, momentos marcantes da vida — como sair da casa dos pais, mudar de cidade, iniciar um novo trabalho ou Paulo Escrivano, cientista do consumo formar uma família — fazem com que determinados objetos assumam um papel que vai muito além da função prática. "Essas transições transformam o móvel em mais do que um item da casa. Ele vira um ponto de continuidade numa vida em que muita coisa muda ao mesmo tempo. A cidade muda, o trabalho muda, a renda muda, uma relação começa ou termina e alguns objetos ajudam a pessoa a preservar uma sensação de identidade", afirma. Na avaliação do pesquisador, essa mudança também exige outra forma de pensar o desenvolvimento de produtos. Durante décadas, boa parte do mobiliário foi concebida para atender uma família relativamente estável, vivendo por muitos anos na mesma residência. Hoje, as necessidades são muito mais diversas. Há consumidores que moram sozinhos, dividem apartamento, trabalham em casa, mudam frequentemente de cidade ou reorganizam completamente a rotina ao longo da vida. Nesse cenário, o móvel

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