Móveis de Valor - Edição 258

ANO 25 • EDIÇÃO 258 • JULHO DE 2026 CONECTANDO IDEIAS, NEGÓCIOS E O FUTURO DO SETOR Inovação é o que move a indústria Vida nômade pede novo olhar para o mobiliário Demanda baixa afeta alta dos preços de móveis Conheça o novo mapa da indústria moveleira do Brasil @moveisdevalor

4 moveisdevalor.com.br Por Inalva Corsi, editora O segundo semestre começa com o mercado repleto de contrastes. Enquanto alguns indicadores apontam para uma recuperação gradual, outros mostram que os desafios permanecem e exigem estratégias cada vez mais precisas por parte da indústria e do varejo. A começar pelo preço dos móveis que subiram menos que a inflação nos primeiros seis meses do ano, somando 1,38%, diante do IPCA de 3,36%. Isso mostra que o varejo usou o preço como ferramenta de venda, diante de uma demanda pouco efetiva. Mas, uma análise mais detalhada revela que a situação difere em cada região do País, mostrando, inclusive, Belo Horizonte com repasse de preços bem acima do IPCA geral. E o varejo que cresce neste cenário é o que aposta menos em desconto e investe mais em experiência. Em reportagem nesta edição, propomos ações de oportunidades para o varejo de móveis e colchões. A indústria está no radar desta edição, e uma reportagem, na editoria Mercado, revela que mudanças no comportamento do consumidor e nas exigências do mercado criaram novo ciclo para os estofados, redefinindo a indústria. Por sinal, a mudança no comportamento do consumidor também aponta a preferência por produtos com maior durabilidade e potencial de acompanhar diferentes fases da vida. Por outro lado, mais mobilidade da população dá novo impulso ao conceito do mobiliário nômade, aquele que acompanha mudanças no estilo de vida. Esse contraponto deixa evidente que o mercado deve ser analisado por camadas, por nichos, por regiões... E, para acompanhar as novas demandas, a indústria precisa investir em tecnologia e novos materiais. A Formóbile foi o grande palco para encontrar inovações e, ao longo de quatro dias, a feira mostrou que a cadeia moveleira está ávida por novidades. No segmento de colchões e estofados, a escassez de espuma é o grande desafio do momento. Em um dossiê sobre a crise da espuma, o CEO da Móveis de Valor, Ari Bruno Lorandi, faz uma ampla análise sobre os caminhos que podem ser percorridos, inclusive com a possibilidade de substituição deste material. Nesta edição tem outros conteúdos relevantes, como a necessidade de debater o uso do EPS nos colchões e o mapa de onde está a força da produção de móveis no País. Em um mercado em constante transformação, informação de qualidade continua sendo um dos principais diferenciais para quem precisa tomar decisões. É com esse compromisso que entregamos mais esta edição da Móveis de Valor. Boa leitura! REDAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO Rua Dep. Estefano Mikilita, 125 - 3º andar CEP 81070-430 - Portão Curitiba – PR – Brasil CONTATO Fone (41) 99912-9877 www.moveisdevalor.com.br moveisdevalor@moveisdevalor.com.br DIRETORES Ari Bruno Lorandi aribruno@moveisdevalor.com.br Inalva Corsi inalvacorsi@moveisdevalor.com.br ADMINISTRAÇÃO/FINANÇAS Juliana Pinheiro financeiro@moveisdevalor.com.br REDAÇÃO Inalva Corsi – 3035 PR Jornalista Responsável inalvacorsi@moveisdevalor.com.br Natalia Concentino – 10431 PR natalia@moveisdevalor.com.br João Caetano Guimarães caetano@moveisdevalor.com.br Guilherme Arruda – 5955 RS Jornalista convidado guilherme@moveisdevalor.com.br DIREÇÃO DE ARTE E DIAGRAMAÇÃO Bruna Rosário arte@moveisdevalor.com.br ASSINATURAS E CIRCULAÇÃO assina@moveisdevalor.com.br COMERCIAL – SUL Inalva Corsi - (41) 99912-9877 | 99991-2974 inalvacorsi@moveisdevalor.com.br COMERCIAL – SUDESTE Cidinha Leal - (17) 98114-3666 cidinha@moveisdevalor.com.br CARTA DA EDITORA @moveisdevalor Acesse a versão digital desta edição

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6 moveisdevalor.com.br SUMÁRIO NOSSA CAPA Ilustra capa desta edição cozinha Kali Premium, da Nicioli, de Arapongas (PR) (43) 3303-83800 www.nicioli.com 44 OBSERVATÓRIO DA INDÚSTRIA Os grandes números do setor de móveis em 2024 46 MERCADO EXTERNO Domínio chinês e proteção dos EUA pressionam exportadores 92 DOSSIÊ CRISE DA ESPUMA Escassez desafia cadeia de colchões e estofados SEÇÕES 8 CÁ ENTRE NÓS O que o consumidor leva para casa além do móvel? 10 PONTO DE VENDA Varejo de móveis opera no vermelho, mas queda recua 52 FEIRAS E EVENTOS Formóbile mostra força da cadeia moveleira nacional 14 COMÉRCIO Preço de móveis sobe menos que a inflação 20 GESTÃO E MERCADO O varejo que cresceu escolheu outro caminho 26 MERCADO Novo ciclo dos estofados redefine a indústria 30 MERCADO Longevidade no centro das decisões de compra 34 MERCADO Vida em movimento pede novo olhar sobre mobiliário 38 OBSERVATÓRIO DA INDÚSTRIA Mapa revela onde está a força do móvel brasileiro 54 FEIRAS E EVENTOS Tecnologia e inovação marcam lançamentos da Formóbile 84 FEIRAS E EVENTOS Salão de Gramado fortalece negócios e abre fronteiras 100 BED REPORT É hora de amadurecer o debate sobre EPS nos colchões 106 DESTAQUE DE CAPA Nicioli mostra como evoluiu junto com a cozinha brasileira 114 ESG NEWS Jovens criam negócio milionário com reforma de móveis escolares 118 NOTAS INDÚSTRIA Comércio global amplia demanda por madeira e cria oportunidades

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8 moveisdevalor.com.br Por Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor Há uma discussão muito interessante acontecendo no mercado britânico. Não sobre preço. Não sobre design. Mas sobre o que existe dentro de um sofá. Pode parecer estranho. Afinal, ninguém compra um sofá para desmontá-lo quando chega em casa. Mas alguém deveria perguntar: Qual é a espuma? Qual é a densidade? Que mecanismo de reclinação foi utilizado? As ferragens foram projetadas para durar cinco anos ou vinte? O fabricante investiu em engenharia ou só em marketing? Essa discussão ganhou força porque uma empresa italiana decidiu transformar o conhecimento técnico em argumento de venda, treinando seus vendedores para explicar ergonomia, mecanismos e componentes ao consumidor. Eu me pergunto: por que isso praticamente não existe no Brasil? Nós compramos colchões sem saber qual espuma e outros materiais realmente estão dentro. Compramos sofás sem perguntar que estrutura sustenta o assento. Compramos armários planejados sem conhecer a qualidade das corrediças, das dobradiças e dos sistemas de abertura. Depois reclamamos quando a porta desalinha, quando a gaveta trava, quando o colchão perde conforto ou quando o sofá afunda. O curioso é que ninguém compraria um carro sem perguntar qual motor ele possui. Ninguém compraria um computador sem saber qual processador existe lá dentro. O QUE O CONSUMIDOR LEVA PARA CASA ALÉM DO MÓVEL? Está aí uma das maiores oportunidades para o varejo brasileiro. Em vez de concentrar toda a argumentação em preço, tecido ou condições de pagamento, por que não transformar o conhecimento técnico em diferencial competitivo? Um vendedor preparado consegue explicar por que uma espuma oferece maior resiliência, por que uma estrutura de madeira faz diferença na durabilidade ou por que um conjunto de ferragens de melhor qualidade prolonga a vida útil do produto. Quando isso acontece, o consumidor deixa de enxergar apenas um móvel e passa a compreender o investimento que está fazendo. Mas dentro da nossa casa parece que basta a cor, o tecido bonito e uma parcela que caiba no bolso. Está na hora de mudar essa lógica. Porque conforto não é decoração. Durabilidade não é sorte. Qualidade não é aparência. Ela está justamente naquilo que o consumidor quase nunca vê. E cabe à indústria e, principalmente, ao varejo, tornar visível esse valor. Quanto mais informação qualificada chegar ao consumidor, menor será a comparação baseada apenas em preço e maior será o reconhecimento daquilo que realmente diferencia um produto do outro. Este é o próximo grande desafio da indústria brasileira: deixar de vender apenas um móvel bonito e começar a vender conhecimento. Porque quando o cliente entende o que existe por dentro, ele deixa de comparar apenas preço e passa a comparar valor.

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10 moveisdevalor.com.br PESQUISA QUE REVELA GAÚCHO MAIS RACIONAL DESAFIA O VAREJO DE MÓVEIS A pesquisa "Os Gaúchos e o Consumo 2026", realizada pelo Jornal do Comércio em parceria com a Escola de Negócios da PUC-RS, mostra que o consumidor gaúcho está mais racional e criterioso nas decisões de compra. Embora o preço siga como fator importante, confiança na empresa, qualidade, atendimento, conveniência e experiência de compra ganharam peso. Para o setor moveleiro, o estudo reforça que investir em valor percebido, integração entre canais físicos e digitais e relacionamento com o cliente é cada vez mais decisivo para conquistar consumidores mais informados e exigentes. “EMPRESA DE COLCHÕES” É ALVO DE OPERAÇÃO POR LAVAGEM DO TRÁFICO Uma empresa que se apresentava como comerciante de colchões foi alvo da Operação Tela Oculta, da Polícia Civil de Santa Catarina, por suspeita de atuar na lavagem de dinheiro do tráfico de drogas. Segundo a investigação, o grupo teria movimentado cerca de R$ 1,1 bilhão utilizando a empresa como fachada para dar aparência legal aos recursos ilícitos. A ação cumpriu 32 mandados de prisão e 80 de busca e apreensão em cinco estados, além de apreender drogas, um fuzil e documentos. A investigação segue em andamento. VAREJO DE MÓVEIS OPERA NO VERMELHO, MAS RITMO DE QUEDA RECUA Nos cinco primeiros meses de 2026, o volume de vendas acumulou retração de 3,7%, enquanto a receita nominal caiu 1,3%, segundo o IBGE. Apesar do resultado negativo, os números mostram uma desaceleração das perdas em relação ao início do ano, sugerindo um cenário de maior estabilidade. O comportamento da receita também indica que parte da queda nas vendas vem sendo compensada por reajustes de preços e produtos de maior valor agregado. A expectativa do setor agora se volta para o segundo semestre, tradicionalmente mais forte para o varejo de móveis. WHATSAPP DA LU SUPERA R$ 100 MILHÕES E ACELERA VAREJO DE IA WhatsApp da Lu, plataforma de inteligência artificial conversacional do Magazine Luiza, superou R$ 100 milhões em vendas apenas oito meses após o lançamento. A ferramenta reúne 7,7 milhões de usuários, permite pesquisar produtos, receber recomendações personalizadas e concluir compras diretamente pelo aplicativo, alcançando taxa de conversão três vezes maior que a dos canais digitais tradicionais. O resultado reforça o avanço da IA como canal estratégico de vendas e relacionamento no varejo, tendência que também abre oportunidades para o setor moveleiro. PONTO DE VENDA

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14 moveisdevalor.com.br Preço de móveis sobe menos que a inflação no 1º semestre O resultado mostra que, de maneira geral, os preços praticados pelo setor não acompanharam integralmente o avanço do custo de vida. Essa diferença pode refletir tanto uma menor capacidade da indústria e do varejo para repassar custos quanto uma estratégia comercial deliberada de contenção ou redução de preços para estimular as vendas. Em um ambiente de consumo ainda pressionado por juros, endividamento e maior seletividade das famílias, o preço se transforma em ferramenta competitiva. Reduções e reajustes abaixo da inflação nem sempre significam queda de custos. Muitas vezes, representam promoções, queima de estoques, renegociação com fornecedores ou compressão das margens para aumentar o giro das mercadorias. Ao mesmo tempo, algumas categorias avançaram muito acima da média do mobiliário, mostrando que não existe um comportamento uniforme no setor. MOBILIÁRIO COMEÇA O ANO EM QUEDA E GANHA FORÇA GRADUALMENTE O item mobiliário registrou pequenas deflações nos dois primeiros meses do ano. Os preços caíram 0,08% em janeiro e 0,09% em fevereiro. Em março, houve uma mudança de direção, com alta de 0,45%. O movimento ganhou intensidade em abril, quando os preços avançaram 0,62%, maior aumento mensal do semestre. Em maio e junho, os reajustes desaceleraram para 0,25% e 0,23%, respectivamente. Mobiliário acumula alta de 1,38% no semestre, diante de IPCA de 3,36%; colchões e móveis para quarto avançam bem acima da média. A alta maior é de colchões (8,71%) e a menor de móvel para sala (-1,09%). Os preços dos móveis apresentaram comportamento moderado no primeiro semestre de 2026. A alta acumulada de 1,38% representa menos da metade da inflação geral de 3,36% registrada pelo IPCA no mesmo período COMÉRCIO

15 moveisdevalor.com.br A trajetória sugere que o início do ano foi marcado por maior agressividade comercial do varejo, possivelmente relacionada à necessidade de movimentar estoques depois das vendas de final de ano e estimular a demanda em um período tradicionalmente mais fraco. A partir de março, os preços voltaram a subir, mas sem uma aceleração descontrolada. Mesmo com quatro meses consecutivos de aumento, o acumulado de 1,38% permaneceu bastante inferior ao IPCA geral. Essa diferença pode indicar que o varejo ainda encontra resistência do consumidor para aceitar reajustes maiores. Também pode demonstrar que a indústria está absorvendo parte da elevação dos custos, postergando repasses ou negociando condições para preservar os volumes vendidos. MÓVEIS PARA SALA FICAM MAIS BARATOS Os móveis para sala apresentaram o comportamento mais contido entre as categorias pesquisadas. Os preços acumularam queda de 1,09% no primeiro semestre e recuo de 0,33% em 12 meses. A categoria registrou deflação em janeiro, março, abril e maio. Houve estabilidade praticamente absoluta em fevereiro e uma pequena alta de 0,28% em junho. O resultado pode ser interpretado como um sinal de maior pressão competitiva e necessidade de promoção. Salas de estar, estofados, racks e outros produtos desse ambiente costumam ocupar espaço relevante nas lojas e nos estoques. Quando as vendas não respondem na velocidade esperada, o varejo tende a recorrer mais rapidamente a descontos. Essa queda de preços não significa necessariamente que os custos industriais tenham diminuído. Ela pode representar uma decisão de mercado: reduzir a margem unitária para ampliar a circulação dos produtos e liberar espaço físico e financeiro. Também é possível que a categoria esteja enfrentando uma demanda mais fraca em comparação com outros segmentos. Produtos com preços persistentemente em queda ou abaixo da inflação geralmente indicam menor poder de repasse ao consumidor. MÓVEIS PARA QUARTO MOSTRAM DEMANDA MAIS CONSISTENTE Na direção oposta, os móveis para quarto acumularam alta de 2,82% entre janeiro e junho e de 6,22% nos últimos 12 meses. O avanço foi superior ao do mobiliário geral e também superou a inflação média no acumulado de 12 meses.

16 moveisdevalor.com.br O desempenho pode estar associado à demanda por reformas, mudanças residenciais e projetos de cozinha. É uma categoria na qual o consumidor costuma tomar decisões mais planejadas e aceitar diferenças maiores de preço conforme materiais, dimensões, acabamento e nível de personalização. A alta acumulada em 12 meses sugere que os fabricantes e varejistas encontraram espaço para repassar custos com mais facilidade do que nos móveis para sala. Ainda assim, o avanço de apenas 1,80% no ano mostra que esse repasse perdeu intensidade no primeiro semestre. MÓVEIS INFANTIS PRATICAMENTE NÃO MUDAM DE PREÇO Os móveis infantis encerraram junho com variação acumulada de apenas 0,06% no ano. Na prática, os preços ficaram estáveis durante o primeiro semestre. A categoria apresentou alta de 0,81% em janeiro, mas depois alternou avanços e quedas. Houve aumento de 0,12% em fevereiro, recuo de 1,11% em março, alta de 1,07% em abril e novas quedas de 0,60% em maio e 0,21% em junho. Em 12 meses, a elevação foi de apenas 0,21%. Esse comportamento pode refletir uma demanda bastante sensível ao preço. O segmento infantil compete não apenas entre marcas e lojas, mas COMÉRCIO O comportamento mensal mostra uma reação mais firme a partir de março. Depois de pequenas quedas em janeiro e fevereiro, os preços subiram 1,32% em março, 0,78% em abril, 0,56% em maio e 0,15% em junho. A sequência positiva pode indicar uma demanda mais aquecida e maior capacidade de repasse de preços. Quando uma categoria consegue sustentar altas durante vários meses, isso pode significar que o consumidor está aceitando melhor os reajustes ou que o varejo dispõe de menos necessidade de realizar promoções agressivas. Também devem ser considerados fatores como composição dos produtos vendidos, aumento da participação de itens de maior valor agregado e lançamento de novas linhas. O IPCA mede a variação dos preços ao consumidor, mas o resultado pode ser influenciado pela mudança no perfil da oferta disponível no mercado. MÓVEIS PARA COZINHA SOBEM ACIMA O MOBILIÁRIO GERAL Os móveis para cozinha acumularam aumento de 1,80% no primeiro semestre e de 5,55% em 12 meses. A categoria começou o ano com três meses de comportamento moderado ou negativo, mas registrou forte alta de 1,64% em abril. Depois desse avanço, os preços subiram 0,22% em maio e 0,24% em junho.

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18 moveisdevalor.com.br também com o mercado de produtos usados e com decisões familiares de postergação da compra. A estabilidade prolongada sugere baixo poder de repasse. Mesmo que os custos industriais tenham aumentado, fabricantes e varejistas parecem encontrar dificuldade para transferir integralmente esses acréscimos ao preço final. COLCHÕES REGISTRAM A MAIOR ALTA Os colchões foram o grande destaque do período. Os preços acumularam alta de 8,71% no primeiro semestre e de 11,25% em 12 meses, muito acima do IPCA geral e de todas as categorias de móveis analisadas. O desempenho, porém, foi marcado por fortes oscilações. Os preços caíram 0,51% em janeiro, 1,43% em fevereiro e 1,05% em março. Em abril, houve uma alta excepcional de 8,13%, seguida por aumentos de 1,16% em maio e 2,41% em junho. A intensidade dos reajustes pode refletir uma combinação de fatores. Entre eles estão o repasse de custos de matérias-primas, espumas, tecidos, componentes metálicos, transporte e mão de obra. Também pode haver uma questão de demanda. Categorias com vendas mais aquecidas oferecem maior espaço para recomposição de margens, especialmente quando o consumidor percebe diferenças de qualidade, tecnologia, conforto e durabilidade. A concentração da alta a partir de abril também pode estar relacionada a uma recomposição após as quedas do primeiro trimestre. Fabricantes e varejistas podem ter utilizado os primeiros meses do ano para realizar promoções e, posteriormente, reposicionado os preços. Por ser uma variação muito elevada, o comportamento dos colchões precisa ser acompanhado nos próximos meses. Caso os aumentos continuem, haverá um sinal mais claro de pressão de custos ou de demanda fortalecida. Se houver estabilidade ou redução, parte do avanço poderá ter sido um ajuste pontual. CAPITAIS TAMBÉM APRESENTAM MOVIMENTOS MUITO DIFERENTES A variação dos preços de mobiliário não foi uniforme entre as capitais pesquisadas. Em junho, São Paulo registrou queda de 0,94%, enquanto Belo Horizonte avançou 1,21%, Fortaleza subiu 1,27% e Porto Alegre teve aumento de 1,18%. No acumulado do primeiro semestre, o Rio de Janeiro apresentou queda de 1,57% e São Paulo recuo de 0,43%. Em contraste, Belo Horizonte acumulou alta de 3,84%, Grande Vitória avançou 3,18% e Belém registrou aumento de 3,02%. Curitiba teve elevação de 1,90% no período e Porto Alegre, de 1,77%. As diferenças regionais podem ser explicadas por condições distintas de demanda, estoques, concorrência, renda, custos logísticos e estratégias comerciais. Em mercados nos quais as vendas estão mais fracas, o varejo tende a utilizar os preços de maneira mais agressiva. Onde a demanda se mantém firme, existe maior espaço para reajustes. No acumulado de 12 meses, a distância é ainda maior. Os preços do mobiliário caíram 1,05% no Rio de Janeiro, mas subiram 7,01% em Belém, 6,01% em Porto Alegre e 5,61% em Curitiba. COMÉRCIO

19 moveisdevalor.com.br PREÇO BAIXO NEM SEMPRE SIGNIFICA CENÁRIO POSITIVO Uma leitura superficial poderia concluir que a elevação moderada dos preços de móveis é necessariamente uma boa notícia para o consumidor. Para o setor, entretanto, o quadro é mais complexo. Quando o varejo reduz preços para destravar vendas, o volume pode crescer, mas as margens ficam pressionadas. Se a indústria também precisa conceder descontos ou absorver custos, a rentabilidade de toda a cadeia pode diminuir. Por outro lado, aumentos muito elevados não significam automaticamente apenas inflação de custos. Eles também podem refletir demanda forte, menor disponibilidade de produtos ou migração do consumidor para itens de maior valor agregado. O preço, portanto, funciona como um indicador do equilíbrio entre oferta, demanda, custos e capacidade de negociação. INDÚSTRIA ENFRENTA O DESAFIO DO REPASSE Para os fabricantes, a principal questão é saber até que ponto os aumentos dos custos podem ser transferidos ao varejo e ao consumidor. Em categorias com preços estáveis ou em queda, como móveis para sala e móveis infantis, a indústria provavelmente encontra maior resistência para realizar reajustes. Isso pode obrigar as empresas a buscar ganhos de eficiência, reformular produtos, reduzir custos ou trabalhar com margens menores. Nos móveis para quarto, cozinha e, principalmente, nos colchões, existe maior evidência de repasse. A demanda pode estar mais firme ou os aumentos de custos podem ter se tornado difíceis de absorver. A capacidade de reajustar preços também depende do posicionamento da marca. Produtos mais diferenciados, com design, tecnologia, personalização ou maior valor percebido, costumam ter mais espaço para repassar custos do que itens altamente comparáveis. UM MERCADO DIVIDIDO POR CATEGORIA O primeiro semestre de 2026 mostra que não existe uma única inflação de móveis. Cada categoria respondeu de maneira diferente às condições de mercado. Os móveis para sala ficaram mais baratos, possivelmente sob pressão promocional e menor força da demanda. Os móveis infantis permaneceram praticamente estáveis. Cozinhas e quartos tiveram aumentos mais consistentes, enquanto os colchões registraram uma elevação muito superior à média. No conjunto, o mobiliário subiu apenas 1,38%, diante de inflação geral de 3,36%. Isso demonstra que o setor ainda está utilizando o preço como instrumento para sustentar as vendas e que o repasse dos custos ocorre de maneira seletiva. A expectativa para o segundo semestre é de continuidade dessa diferença entre categorias. Produtos com estoques elevados e demanda mais fraca devem permanecer sujeitos a promoções e contenção de preços.

20 moveisdevalor.com.br O varejo que cresceu escolheu outro caminho Durante décadas, o varejo acostumou-se a procurar respostas para seus desafios em fatores externos. Juros elevados, inflação, concorrência digital, custos operacionais e mudanças no comportamento do consumidor passaram a ocupar o centro das discussões. Todos esses elementos continuam relevantes, especialmente em segmentos de bens duráveis como móveis e colchões. No entanto, uma ampla pesquisa realizada no Reino Unido sugere que a diferença entre crescer e estagnar pode estar menos nas condições do mercado e mais nas escolhas feitas pelas próprias empresas. O estudo Voices of Retail 2026, desenvolvido pela Faire em parceria com a Spring & Autumn Fair, ouviu 650 varejistas e mais de dois mil consumidores britânicos para identificar o que está funcionando no varejo contemporâneo. Embora o levantamento tenha sido realizado em um dos mercados mais maduros da Europa, suas conclusões dialogam de forma surpreendente com a realidade brasileira. Em muitos aspectos, os desafios enfrentados por uma loja independente em Manchester são semelhantes aos vividos por um lojista de móveis em Cascavel, Recife ou Belo Horizonte. NÃO AOS PREÇOS BAIXOS O primeiro dado que chama atenção é que os varejistas em crescimento não são aqueles que mais apostam em preços baixos. Pelo contrário. A pesquisa mostra que os negócios que avançam de forma consistente investem significativamente mais em construção de marca, comunicação, Pesquisa mostra que as empresas mais bem-sucedidas estão investindo menos em descontos e mais em experiência, identidade e relacionamento. Os resultados ajudam a explicar desafios e, nesta reportagem, estamos propondo ações de oportunidades para o varejo brasileiro de móveis e colchões GESTÃO & MERCADO Por Ari Bruno Lorandi, CEO Móveis de Valor

21 moveisdevalor.com.br experiência de compra e identidade empresarial. Já entre os varejistas em declínio, a estratégia predominante é a migração para produtos mais baratos e promoções mais agressivas. A constatação é particularmente relevante para o setor moveleiro. Nos últimos anos, muitos lojistas reagiram ao enfraquecimento do consumo comprimindo margens e ampliando campanhas promocionais. A estratégia pode gerar resultados pontuais, mas raramente constrói diferenciação. Quando o preço se torna o principal argumento de venda, a fidelidade do consumidor passa a durar apenas até a próxima oferta do concorrente. O estudo britânico sugere justamente o contrário. Os consumidores continuam atentos ao preço, mas valorizam cada vez mais atributos como confiança, autenticidade, qualidade do atendimento e experiência de compra. Em outras palavras, cresce a importância do valor percebido e diminui a eficácia das disputas baseadas exclusivamente em descontos. Para os segmentos de móveis e colchões, essa conclusão é ainda mais significativa. Poucos produtos permanecem tanto tempo na vida das pessoas. Um colchão pode acompanhar uma família por uma década. Um sofá ocupa posição central dentro da casa. Um dormitório planejado frequentemente representa a realização de um projeto construído ao longo de anos. Nesses casos, a decisão de compra envolve muito mais do que características técnicas ou comparação de preços. O consumidor não adquire apenas um colchão. Ele compra conforto, descanso, recuperação física e qualidade de vida. Da mesma forma, quem investe em móveis está buscando funcionalidade, estética, bem-estar e identidade para os ambientes onde vive. As empresas que conseguem comunicar esses benefícios tendem a construir relacionamentos mais sólidos e menos dependentes de promoções permanentes. SIM ÀS LOJAS FÍSICAS Outro aspecto particularmente interessante da pesquisa diz respeito ao papel da loja física. Durante anos, acreditou-se que o comércio eletrônico substituiria gradualmente os pontos de venda tradicionais. O levantamento mostra uma realiVarejistas em crescimento não são aqueles que mais apostam em preços baixos Os consumidores continuam valorizando o contato humano, a experimentação dos produtos e a orientação especializada

22 moveisdevalor.com.br Diferentemente de categorias mais padronizadas, a compra de um colchão ou de um estofado continua altamente dependente da experimentação. O cliente quer sentar, deitar, comparar sensações, entender diferenças e reduzir riscos. Nesse contexto, o vendedor deixa de ser apenas um operador comercial para assumir o papel de consultor. A pesquisa reforça que as empresas mais bem- -sucedidas estão investindo justamente nessa direção. O conhecimento técnico das equipes, a capacidade de explicar benefícios e a construção de confiança tornam-se ativos estratégicos. Em um ambiente cada vez mais digitalizado, o fator humano não perde importância; ao contrário, ganha relevância. PROMOVER EVENTOS, SIM! Outro aprendizado valioso está relacionado à experiência proporcionada pelas lojas. Os consumidores entrevistados demonstram grande interesse por eventos, atividades comunitárias e iniciativas que transformem o varejo em algo além de um simples local de compra. No Reino Unido, mercados temáticos, encontros comunitários e eventos colaborativos aparecem entre os principais geradores de tráfego. No Brasil, o conceito pode ser adaptado com enorme potencial. Semanas dedicadas ao sono saudável, encontros com arquitetos, workshops de decoração, consultorias de ergonomia, apresentações de tendências e eventos para síndicos e construtoras são exemplos de iniciativas capazes de fortalecer o relacionamento com o público. O objetivo não é apenas aumentar o fluxo de pessoas, mas criar razões para que o consumidor escolha visitar determinada loja. Nesse ponto, a pesquisa mostra outro dado revelador. Embora quase 90% dos varejistas que realizam ações colaborativas relatem ganhos comerciais, apenas uma pequena parcela trabalha essas iniciativas de forma estruturada. O cenário brasileiro apresenta situação semelhante. Ainda são poucas as empresas que exploram plenamente parcerias com arquitetos, designers, clínicas do sono, academias, construtoras ou imobiliárias. Encontros comunitários e eventos colaborativos aparecem entre os principais geradores de tráfego GESTÃO & MERCADO dade mais complexa. Os consumidores continuam valorizando o contato humano, a experimentação dos produtos e a orientação especializada. Mais do que isso: nove em cada dez entrevistados afirmam que o avanço da inteligência artificial aumenta sua disposição de visitar lojas físicas e conversar com especialistas. O dado pode parecer paradoxal à primeira vista, mas faz sentido. Quanto maior a quantidade de informação disponível na internet, maior se torna o valor da curadoria. O consumidor chega à loja após pesquisar, comparar e assistir vídeos. Ainda assim, busca alguém capaz de ajudá-lo a interpretar essas informações e transformá-las em uma decisão segura. Para o varejo de móveis e colchões, trata- -se de uma vantagem competitiva natural.

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24 moveisdevalor.com.br A construção desses ecossistemas pode representar uma das formas mais eficientes de geração de negócios nos próximos anos. Em vez de depender exclusivamente de publicidade tradicional, as empresas passam a compartilhar audiências, ampliar sua presença local e fortalecer sua reputação. FÍSICO E DIGITAL JUNTOS O estudo também reforça uma tendência que já se consolidou em diversos mercados: a falsa oposição entre físico e digital perdeu sentido. Os consumidores transitam naturalmente entre os ambientes. Pesquisam online, interagem por redes sociais, trocam mensagens pelo WhatsApp e visitam a loja para concluir a compra ou validar suas escolhas. Para o varejo brasileiro de móveis e colchões, isso significa que presença digital deixou de ser diferencial. Tornou-se requisito básico. Instagram, vídeos, atendimento remoto, CRM e estratégias de relacionamento precisam funcionar como extensões da loja física, e não como canais isolados. Talvez a principal mensagem da pesquisa seja que o futuro do varejo não pertence necessariamente às maiores empresas nem às mais agressivas em preço. Pertence àquelas que conseguem construir relevância. As organizações que crescem de forma consistente são as que transformam produtos em soluções, lojas em experiências e clientes em comunidades. O setor moveleiro brasileiro possui uma vantagem importante nessa transformação. Poucos segmentos trabalham com produtos tão ligados ao bem-estar, à qualidade de vida e à construção dos ambientes onde as pessoas vivem. O desafio não está apenas em vender móveis ou colchões. Está em comunicar, de forma convincente, os benefícios que eles representam. A pesquisa britânica deixa claro que os consumidores continuam dispostos a comprar. O que mudou foi a forma como escolhem onde comprar. As empresas que compreenderem essa mudança terão mais chances de prosperar. As que insistirem em competir exclusivamente por preço poderão descobrir, tarde demais, que o mercado já está jogando outro jogo. O digital funciona como extensão da loja física, e não como canal isolado AS 10 ATITUDES QUE SEPARAM AS LOJAS QUE CRESCEM DAS QUE APENAS SOBREVIVEM 1. Construir uma marca reconhecida localmente. 2. Transformar vendedores em consultores especializados. 3. Reduzir a dependência de promoções permanentes. 4. Investir na experiência dentro da loja. 5. Realizar eventos e ações de relacionamento. 6. Desenvolver parcerias estratégicas locais. 7. Integrar completamente os canais físico e digital. 8. Produzir conteúdo útil para os consumidores. 9. Trabalhar o pós-venda de forma estruturada. 10. Vender benefícios e soluções, não apenas produtos. GESTÃO & MERCADO

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26 moveisdevalor.com.br O novo ciclo dos estofados redefine a indústria moveleira A indústria global de móveis estofados atravessa um dos momentos mais transformadores de sua história recente. Depois de enfrentar os efeitos da pandemia, interrupções nas cadeias de suprimentos, tarifaço, inflação de matérias-primas e oscilações no mercado imobiliário, o setor entra em uma nova fase em que produzir não é mais o suficiente. A competitividade passa a depender da capacidade de personalizar, reduzir desperdícios, incorporar tecnologia e responder rapidamente às mudanças de comportamento do consumidor. Enquanto alguns mercados retomam investimentos, outros ainda enfrentam juros elevados, demanda mais lenta e maior cautela nas compras. Nesse cenário, planejar a produção com base em uma demanda média tornou-se cada vez mais arriscado. A lógica da produção em massa começa a dar espaço para operações mais flexíveis, capazes de produzir lotes menores, atender pedidos personalizados e adaptar rapidamente o mix de produtos. Uma das mudanças mais significativas observadas no setor é a transição da produção padronizada para a chamada micro customização. Consumidores estão cada vez menos dispostos a aceitar poucas opções de modelos, tecidos ou acabamentos. Ao mesmo tempo, esperam prazos de entrega rápidos e preços competitivos. Essa combinação cria um desafio inédito para os fabricantes: oferecer dezenas — ou centenas — de combinações possíveis sem comprometer produtividade e rentabilidade. O fenômeno é impulsionado pelo crescimento do comércio eletrônico, pela popularização de configuradores digitais e pela busca crescente Mudanças no comportamento do consumidor e nas exigências do mercado aceleram transformações que alcançam toda a cadeia de estofados. A busca por flexibilidade produtiva ganha força em um cenário marcado por consumidores exigentes, avanços tecnológicos e sustentabilidade MERCADO Por João Caetano Guimarães, jornalista

27 moveisdevalor.com.br por identidade estética. Em vez de escolher entre três opções de tecido, o consumidor moderno espera encontrar dezenas. Em vez de um único tamanho, deseja versões adaptadas ao seu espaço e estilo de vida. Na avaliação da arquiteta de interiores Juliana Faria, essa personalização pode enriquecer significativamente os projetos quando está alinhada à identidade do cliente. “A escolha do tecido, da cor e das texturas pode transformar completamente o ambiente e reforçar sua personalidade. A exclusividade só compromete a harmonia quando os elementos deixam de conversar entre si ou refletem mais uma tendência passageira do que o estilo de quem utiliza o espaço”, afirma. Para a indústria, isso significa lidar com uma explosão de combinações possíveis e, ao mesmo tempo, manter eficiência operacional. O desafio torna-se fabricar com agilidade e precisão. Outra transformação relevante é a consolidação do design resimercial, conceito que ganhou força após o avanço do trabalho híbrido e combina o conforto dos ambientes residenciais com os requisitos de durabilidade dos espaços corporativos. Hotéis, coworkings, restaurantes, clínicas e escritórios passaram a buscar ambientes mais acolhedores, com formas orgânicas, tecidos suaves, texturas como bouclé – superfície felpuda e irregular, feita a partir de fios retorcidos que formam pequenos nós ou laços—, e paletas em tons terrosos e naturais. “Hoje vemos salas de espera de hospitais e escritórios que lembram verdadeiras salas de estar. O objetivo deixou de ser criar espaços excessivamente formais e passou a ser oferecer acolhimento e bem-estar”, observa Juliana. Porém, os móveis precisam oferecer conforto semelhante ao residencial sem perder resistência para suportar anos de uso intenso. Por isso, cresce a procura por tecidos com alta resistência ao desgaste. A sustentabilidade também ganhou peso estratégico nas decisões de compra, especialmente no mercado corporativo. Compradores buscam cada vez mais rastreabilidade de materiais, certificações e soluções alinhadas aos princípios da economia circular, com produtos desenvolvidos para facilitar manutenção, reparos e prolongar a vida útil. Esse movimento também altera a forma como fabricantes desenvolvem seus produtos. Componentes modulares, tecidos de maior resistência e estruturas projetadas para futuras reformas ajudam a reduzir o custo total de propriedade, uma variável cada vez mais considerada por hotéis, escritórios e outros empreendimentos que operam com mobiliário de uso intenso. Além do impacto ambiental, a durabilidade passa a representar uma vantagem econômica para empresas e consumidores. Na avaliação da arquiteta, a durabilidade é o principal aspecto considerado pelos consumidores. "Como um estofado representa um investimento importante, as pessoas valorizam peças resistentes, fáceis de limpar e que possam ser reformadas no futuro. Quando a estrutura é de qualidade, é possível trocar o tecido diversas vezes e prolongar muito a vida útil do móvel", afirma. A tecnologia também avança nos estofados, incorporando recursos de IoT como carregadores sem fio, sensores de ocupação e sistemas ergonômicos de forma discreta. Para Juliana Faria, arquiteta de interiores

28 moveisdevalor.com.br Juliana, conforto e estética ainda lideram a decisão de compra, mas as soluções inteligentes devem ganhar espaço conforme evoluírem em design e se tornarem mais acessíveis. As tendências apresentadas no Salone del Mobile.Milano, por exemplo, reforçam esse movimento. A principal feira de design e mobiliário do mundo evidenciou a preferência por sofás modulares, formas orgânicas, assentos mais profundos e revestimentos com forte apelo tátil, em uma combinação que une conforto, flexibilidade e sofisticação. Também ganharam espaço soluções voltadas à durabilidade e à adaptação dos ambientes, confirmando que a capacidade de personalizar produtos e prolongar sua vida útil tende a se consolidar como um diferencial competitivo para fabricantes de estofados. Outro desafio que acompanha essa transformação é a escassez de mão de obra qualificada. O envelhecimento de profissionais especializados acelera investimentos em automação e digitalização, tecnologias que ampliam a produtividade e reduzem desperdícios, mantendo o trabalho artesanal como diferencial em produtos de maior valor agregado. O QUE MUDA PARA A INDÚSTRIA BRASILEIRA Para o Brasil, que reúne importantes polos produtores de estofados, esse cenário representa desafios e oportunidades. À medida que mercados passam a valorizar personalização, rastreabilidade e sustentabilidade, empresas que conseguirem combinar design, eficiência industrial e capacidade de adaptação tendem a ampliar sua competitividade no mercado interno e nas exportações. A discussão é maior do que apenas aumentar a produção, o novo ciclo da indústria moveleira exige flexibilidade para responder rapidamente às mudanças do mercado. O futuro dos estofados será definido menos pela escala de fabricação e mais pela capacidade de inovar, personalizar e entregar valor em um ambiente cada vez mais dinâmico. Estofado Paso Doble e poltrona Anam, da Saba Italia MERCADO

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30 moveisdevalor.com.br Longevidade volta ao centro das decisões de compra Durante anos, a indústria moveleira global foi impulsionada por um modelo baseado em volume, velocidade e renovação constante. O avanço do comércio eletrônico, a popularização das redes sociais e a rápida disseminação de tendências favoreceram móveis de menor valor agregado, desenvolvidos para atender um consumidor cada vez mais sensível ao preço. A designer Sarah Montgomery, em entrevista ao site bhg.com, observou que móveis de menor valor agregado dominaram o mercado nos últimos anos. "É difícil não notar o quanto a qualidade dos móveis novos caiu ultimamente. As pessoas estão escolhendo com base no preço e na rapidez da entrega, em vez de verem os produtos pessoalmente”. Em seu programa, Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor, acrescenta ao debate o questionamento do valor do móvel para o comprador. Ele afirma que, na prática, o que se tem é um círculo vicioso. “O varejo pressiona por preço para girar estoque, a indústria cede para manter volume. As margens encolhem, a produção fica irregular e o mercado passa a operar em solavancos. Não há previsibilidade, não há construção de marca ou valorização do produto”. Sarah traz o termo “obsolescência programada” como uma das razões para a baixa qualidade dos produtos. O termo se refere a uma forma sofisticada de dizer que muitas empresas projetam móveis com uma vida útil mais curta em mente. "O objetivo é levar o produto ao maior número possível de consumidores, geralmente a um preço mais baixo, cientes Em vez de substituir móveis com frequência, parte dos consumidores passou a priorizar produtos com maior durabilidade e potencial para acompanhar diferentes fases da vida. Com a mudança, as preocupações com logística, sustentabilidade, design atemporal e adaptação à ambientes ganham força MERCADO Por João Caetano Guimarães, jornalista

31 moveisdevalor.com.br de que o móvel pode não durar tanto." Ela observa que essa abordagem incentiva os consumidores a trocarem de móveis com mais frequência, o que, em última análise, impulsiona as vendas. Nos últimos anos, porém, sinais vindos de diferentes mercados indicam uma mudança de comportamento. Em vez de substituir móveis com frequência, parte dos consumidores passou a priorizar produtos com maior durabilidade, qualidade construtiva e potencial para acompanhar diferentes fases da vida. Um dos exemplos mais recentes vem do Reino Unido. Em um cenário de retração do mercado de móveis e artigos para casa, a varejista The Cotswold Company registrou vendas recordes de R$ 837 milhões e crescimento de quase 25% no lucro. O resultado foi impulsionado por uma estratégia baseada em móveis de madeira maciça, produção artesanal e peças desenvolvidas para permanecer por décadas nas residências. Segundo o CEO Ralph Tucker, os consumidores analisam as compras com mais critério e buscam produtos capazes de atravessar gerações. Essa transformação parece estar relacionada não apenas ao design, mas também a fatores econômicos, ambientais e demográficos. Em diversos mercados, consumidores passaram a enxergar o mobiliário como um investimento de longo prazo, priorizando materiais resistentes, facilidade de manutenção e um desenho capaz de atravessar diferentes tendências. O designer de interiores Flávio Pio, que acompanha as principais feiras internacionais do setor, percebeu esse movimento durante o Salone del Mobile, em Milão. Segundo ele, muitas marcas reduziram o ritmo de lançamentos e concentraram esforços em atualizar coleções já consolidadas. "Mudaram tecidos, acabamentos e cores, mas sem a necessidade de substituir completamente os produtos. A sensação foi de um mercado mais maduro". Na avaliação do profissional, essa mudança também aparece no comportamento do consumidor. Para ele, existe um resgate da ideia de comprar um móvel para acompanhar a família durante muitos anos. O crescimento desse modelo ampliou o acesso ao mobiliário, mas também levantou Flávio Pio, designer de interiores Conforto e durabilidade caminham juntos, na era do consumidor mais consciente Crédito - bottomlineinc.com questionamentos sobre a durabilidade dos produtos. Para Flávio, longevidade vai além da resistência estrutural. Ele explica que uma peça atemporal é aquela que continua fazendo sentido depois de muitos anos. Ela acompanha mudanças na decoração, na casa e no estilo de vida sem perder sua identidade. SUSTENTABILIDADE AMPLIA O CONCEITO DE VALOR A valorização de móveis mais duráveis também acompanha uma mudança na forma como consumidores e fabricantes enxergam a sustentabilidade. Em vez de concentrar o debate apenas na origem dos materiais, cresce a percepção de que prolongar a vida útil dos produtos pode gerar impactos ambientais tão relevantes quanto a utilização de insu-

32 moveisdevalor.com.br mos certificados. Esse entendimento fortalece conceitos como reparabilidade, reaproveitamento e atualização estética, permitindo que um mesmo móvel acompanhe diferentes fases da vida sem precisar ser substituído. Flávio diz que esse movimento já aparece na prática profissional. Segundo ele, muitos clientes preferem reformar peças de qualidade a investir em novos móveis de padrão inferior. "Quando a estrutura é boa, basta renovar o tecido ou alterar alguns acabamentos para transformar completamente o ambiente. Muitas vezes, o móvel continua excelente, o que mudou foi a necessidade da casa”, diz. Além da economia, essa estratégia reduz desperdícios e prolonga a vida útil dos produtos. Para a indústria, isso significa investir em estruturas resistentes, materiais de qualidade e um design capaz de atravessar diferentes tendências. Nesse cenário, atributos como qualidade construtiva, assistência técnica e disponibilidade de peças para reposição ganham relevância na decisão de compra. UM MERCADO EM TRANSFORMAÇÃO Embora ainda seja cedo para afirmar que o consumo de móveis vive uma mudança definitiva, os sinais apontam para um consumidor mais criterioso e disposto a analisar o valor do produto para além do preço. O desempenho de empresas especializadas em móveis de maior durabilidade, a valorização do design atemporal e a crescente preocupação com sustentabilidade reforçam a tendência que pode influenciar o desenvolvimento da indústria nos próximos anos. Para fabricantes brasileiros, esse cenário representa uma oportunidade de agregar valor aos produtos por meio da qualidade, do design e da longevidade. A indústria moveleira passa a responder a um consumidor que procura investir melhor. Nesse contexto, fabricar móveis capazes de atravessar décadas pode representar não apenas uma estratégia comercial, mas um diferencial competitivo para toda a cadeia produtiva. MERCADO A reforma de móveis de qualidade ganha espaço entre consumidores para prolongar a vida útil das peças "O bom design atravessa o tempo justamente porque não depende da moda para permanecer atual." Flávio Pio, designer de interiores

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34 moveisdevalor.com.br Uma vida em movimento pede um novo olhar sobre o mobiliário Durante grande parte do século XX, a indústria moveleira podia trabalhar com uma premissa relativamente estável. A maioria das famílias seguia um roteiro previsível, conquistando a casa própria, organizando os ambientes e permanecendo naquele endereço durante muitos anos. Os móveis eram adquiridos para ocupar um espaço específico e acompanhavam a rotina da família ao longo de décadas. Em muitos casos, atravessavam gerações e carregavam consigo lembranças, histórias e um forte valor afetivo. Porém, a realidade está mudando. Ari Bruno Lorandi, CEO da Móveis de Valor, em um de seus programas observou: “hoje em dia, o consumidor não compra quando precisa, não compra quando deseja melhorar a casa. Compra quando o preço cai. E, quando isso acontece, a decisão deixa de ser sobre conforto, bem-estar ou projeto de vida, e passa a ser sobre oportunidade”. O crescimento do aluguel, a expansão do trabalho remoto, carreiras mais dinâmicas e o adiamento da casa própria fizeram com que um número cada vez maior de pessoas mudasse de cidade, de residência e de rotina ao longo da vida. Diante desse cenário, pesquisadores, designers e fabricantes voltam a discutir sobre a validade de um conceito desenvolvido há mais de cinquenta anos: o mobiliário nômade. O termo ganhou notoriedade em 1973, quando os designers Victor Papanek e James Hennessey O crescimento do aluguel, a maior mobilidade da população e o adiamento da casa própria estão transformando a forma como os consumidores escolhem seus móveis. Criado há mais de 50 anos, o conceito de mobiliário nômade ganha força diante deste consumidor que muda de estilo de vida com mais frequência Por João Caetano Guimarães, jornalista TENDÊNCIA

35 moveisdevalor.com.br publicaram o livro Nomadic Furniture. Em meio à crise do petróleo e ao aumento dos custos de produção, os autores defendiam móveis leves, desmontáveis, multifuncionais e fáceis de transportar. Naquele momento, a proposta respondia a um cenário econômico específico, mas também antecipava a discussão de desenvolver produtos preparados para uma sociedade cada vez mais dinâmica. Cinco décadas depois, o contexto é diferente, mas diversos fatores voltaram a convergir na mesma direção. O preço dos imóveis aumentou em grandes centros urbanos, o período médio até a compra da casa própria se alongou e as mudanças profissionais passaram a fazer parte da trajetória de muitas pessoas. Paralelamente, a digitalização do trabalho reduziu a importância da localização física para diversas ocupações, permitindo que profissionais mudem de cidade sem, necessariamente, trocar de emprego. A casa deixou de representar um destino definitivo e passou a acompanhar um percurso muito mais flexível. Estudos realizados na Universidade de São Paulo identificam o surgimento de consumidores que permanecem mais tempo em imóveis alugados e precisam montar, desmontar e reorganizar seus lares com frequência. Nos Estados Unidos, uma pesquisa conduzida pelo Rochester Institute of Technology chegou a conclusões semelhantes ao analisar o comportamento dos chamados “urban nomads” – profissionais que se deslocam repetidamente em busca de oportunidades de trabalho. Um móvel pensado para acompanhar esse perfil de consumidor precisa suportar sucessivas mudanças, adaptar-se a plantas diferentes, ser desmontado diversas vezes e continuar oferecendo a mesma funcionalidade ao longo desse processo. Em outras palavras, o projeto passa a considerar a trajetória do usuário. Para o cientista de consumo Paulo Escrivano, essa transformação modifica profundamente a relação emocional estabelecida entre as pessoas e seus móveis. Segundo ele, momentos marcantes da vida — como sair da casa dos pais, mudar de cidade, iniciar um novo trabalho ou Paulo Escrivano, cientista do consumo formar uma família — fazem com que determinados objetos assumam um papel que vai muito além da função prática. "Essas transições transformam o móvel em mais do que um item da casa. Ele vira um ponto de continuidade numa vida em que muita coisa muda ao mesmo tempo. A cidade muda, o trabalho muda, a renda muda, uma relação começa ou termina e alguns objetos ajudam a pessoa a preservar uma sensação de identidade", afirma. Na avaliação do pesquisador, essa mudança também exige outra forma de pensar o desenvolvimento de produtos. Durante décadas, boa parte do mobiliário foi concebida para atender uma família relativamente estável, vivendo por muitos anos na mesma residência. Hoje, as necessidades são muito mais diversas. Há consumidores que moram sozinhos, dividem apartamento, trabalham em casa, mudam frequentemente de cidade ou reorganizam completamente a rotina ao longo da vida. Nesse cenário, o móvel

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